Quinta-feira, Setembro 18, 2008

Lá vem

Escuta, vê, abre os olhos. Tem uma criança chorando aqui perto. Olha, percebe e não esquece que há uma criança chorando aqui perto. É na esquina. Nos Sinais. Veja lá vem. Feche o vidro, rápido! Viu as lágrimas? Será que era fome? Não sei. Estão sujas. Meu Deus, lá vem outra e mais outra. Estão todas chorando. São milhares e estão em nossa direção. Espera, quero chorar também, mas tenho medo. Não vivem. Sobrevivem. Estão vivas ou mortas? Estão magras. Choro. Há uma pátria que as ama. De onde vem? Vem do Brasil, meu bem.

Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Children

Children from Brazil are not different from children in Chernobyl. Their misfortunes can be felt here and there. Our children are yellow. Their skins stick to their bones and their stomachs ask for food. Their smiles are dirty and their homes are in the corners of Brazilian cities. Children from Brazil are deformed such as the children from Chernobyl. Their bodies are transformed not by genetic mutations of radioactivity, but by the hands of unscrupulous inhumane beings, fanatics for unhealthy sexual pleasure and by the use of those delicate hands in slave work. Children from Brazil and Chernobyl play hide-and-seek with death and do not only fear. They panic. In Chernobyl children are born with more members, more eyes than usual, or even nothing. There is no Ukraine but skulls. Children from Brazil lose their arms, legs, eyes, pleasure, and even their lives on sugarcane crops, in coal-houses, at traffic lights and brothels. Children from Brazil and Chernobyl do not think as children because children they are not. They are creatures without form, without life. They are radioactive waste. They are, no doubt, dumb and telepathic beings.

Quando decidi emagrecer

Perdi meu pênis de uma hora pra outra. Foi numa noite de Sábado quando estava me preparando para sair que percebi que alguma coisa não estava bem. Olhei-me na frente do espelho e lá estava ele calmo, atento, parado se mais fortes pretensões. Confortava-me saber que estava li e que não havia falhado nunca. Pensei em algumas peripécias. Saudade. Mas ao olhar pra baixo percebi que havia desaparecido. Olhei de novo pro espelho, o vi, olhei pra baixo, não vi mais nada e de novo pro espelho, o vi, e assim fui movimentando a cabeça pra cima e pra baixo para entender o que estava acontecendo. Ilusão. Só poderia ser. Olhei mais duas vezes pra baixo e pro espelho e entrei em pânico. Virei de lado, em um pulo só, e percebi que minha barriga havia virado uma barreira entre nós. Um muro das lamentações, uma montanha de guloseimas depositadas entre dois amigos de carne e osso, uma fronteira que dividia o norte e o sul. Como pude não perceber isso antes? Agora só com presença do espelho e, com excelentes, excelentes, excelentes condições de temperatura e pressão é que poderia encontrá-lo. Tem coisa pior do que perde o pênis para uma barriga? Uma barriga imoral, provocadora de desunião entre amigos inseparáveis. Talvez tenha, mas foi assim, somente assim, que cheguei à conclusão que daquele dia em diante eu deveria começar a emagrecer.

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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