Domingo, Maio 18, 2008

Sem fim

De fome quase morri. E se não morri é por conta do destino. É ele que responde por mim. Nem sei ao certo se entendi o que estava ao meu redor. Nem água para fazer caldo de pedra a gente não tinha mais. Se não existisse o ar seríamos cadáveres flutuantes. Variei. Não sei de onde veio pensamento tão elevado. O que nos segura na terra? Lembrei de meu pai e minha mãe. Cuscuz com côco ralado de manhã cedo. Que saudade dos dois. Talvez seja a preocupação em cabeça e estômago vazios. Que mundo doido. É coisa do aquecimento da terra. Quando eu nasci não tinha isso que falou alguém por aí. Dizem que o sertão vai ficar mais quente ainda e que depois vai fazer tanto frio que cobrirá a caatinga de neve. Não sei o que é neve. Disseram que é coisa branca que cai do céu. Depois vira água. Acredito nada disso, não. Nem virou mar, o sertão. Sei que foi Deus. E se foi Ele quem quis, assim será. Mas fome é coisa pesada e não tem aquecimento que dê jeito. Nem um cururu, cobra, besouro pra comer eu encontrei. Vontade de comer a primeira coisa mastigável que aparecer na minha frente. A terra é vermelha, eu sei. Cor de sangue talhado. Aí comi. A terra enche o bucho. Enche a alma e os olhos de sensação momentânea, mas não mata o que sinto dentro de mim. O ar é pesado. Tontura passando pelo olhar. Se o vento fosse forte seríamos cadáveres flutuantes de levinho que ficam os ossos. Com perna bamba sem vontade de andar. Assim feito um pluma voando de um lado pro outro. Tão magros e leves. A fome me deixa sem ânimo. Tentei cavar a terra. Encontrar água salobra. Raízes de comer. Tudo em vão. O sertão é um tão sem fim que se eu fosse Deus mandaria chuva pra mim.

Quinta-feira, Maio 01, 2008

Altamira: O início

Do alto de uma castanheira alguém olhou para uma banda do rio: Lá, Altamira. À frente, bem longe está o lugar de onde seremos donos. Não só o rio é nosso, mas tudo. E mirou seriamente. O paraíso e o inferno. O calor da floresta está em nosso favor. Lá tudo pode. A Amazônia é o mundo todo. E caminharam pela beira do Xingú mais seis léguas. Mirem o lugar. Não há governo que governe essa terra. Os índios do Xingú serão escravos. As índias servirão pra fazer barriga. Os peixes e os bichos da mata comeremos aos montes. Lá tem açaí para servir de vinho e cupuaçu pra perfumar a boca. As árvores a gente corta pra fazer casa, barco e ponte. O progresso é com a gente. Fazer fazenda na frente do rio. Trazer gado pra avançar e povoar a região. Construir casa, rua, cabaré. Chamar meninas de Belém para animar homem carente. Mandar padre catequizar índio brabo pra servir pra gente. E se alguma pessoa for contra tudo isso? A gente mata e esconde na mata. Ninguém pode impedir o progresso de Altamira. O verde da floresta é escuro e os que se atrevem a morrer, não são encontrados. Não há como sair vivo daqui porque os peixes, a onça ou a cobra grande devoram. E se aparecer a Matinta Perera? Ofereço tabaco e depois mato a maldita. E se o Boto aparecer em algumas de nossas festas para encantar o povo e levar nossas mulheres? Daremos mulher virgem para passar a noite. Quando o Boto estiver em gozo profundo sairemos de tocaia. Mandamos o infeliz pra depois de sete palmos de terra. E se nada der certo? Na Amazônia tudo é incerto, eu sei. Mas nem mesmo homem que arrancar coração de onça de dois metros, e comê-lo ainda quente, impedirá Altamira.

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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