Sábado, Março 29, 2008

Crianças

As crianças do Brasil não são diferentes das crianças de Chernobyl. Seus infortúnios podem ser sentidos tanto aqui como lá. Nossas crianças são encardidas. Suas peles se grudam aos ossos e seus estômagos clamam por alimentos. Seus sorrisos são enferrujados e suas casas estão nas esquinas das cidades brasileiras. As crianças do Brasil são deformadas como as crianças de Chernobyl. Seus corpos são desfigurados não por mutações genéticas de radioatividade, mas por mãos de inescrupulosos seres inumanos fanáticos pelo prazer sexual doentio e pelo uso de delicadas mãos em trabalho escravo. As crianças do Brasil e de Chernobyl brincam de esconde-esconde com a morte e não sentem medo. Sentem pavor. Em Chernobyl as crianças nascem com membros a mais, com olhos a mais, ou mesmo sem nada. Não há mais Ucrânia. Há crânios. As crianças do Brasil perdem os braços, as pernas, os olhos, o prazer, e mesmo a vida nas lavouras de cana-de-açúcar, nas carvoarias, nos semáforos e nos prostíbulos brasileiros. As crianças do Brasil e de Chernobyl não pensam como criança porque crianças não são. São criaturas sem forma, sem vida. São lixos radioativos. São, sem dúvidas, seres mudos e telepáticos.

Sexta-feira, Março 07, 2008

Ainda não sei o título desse texto

Sou hipócrita ao extremo. E acrescento, eu minto. Minto quando não precisa e quando precisa, lógico. Como é bom mentir! Eu adoro. As pessoas acreditam quando a mentira é bem contada. Você nunca mentiu? Besta! A mentira é poderosa e importante. Como seria o mundo sem mentir? Você conta a verdade? Eu sei bem que conta. Sou pedante. Eu sei que não presto. Desde criança fui assim – Pau que nasce torto morre torto - Talvez, por isso não tenho amigos de verdade. Não ligo. Também acho que não preciso deles. Dá uma preguiça essa vida. Coisa chata domingo, segunda, terça, todos os dias. Não gosto de literatura como os outros pensam que gosto. Shakespeare, Machado, Dickens, Cervantes, Kafka. Até que Kafka era o que eu mais gostava, mas tudo um saco. Impressiono as pessoas com alguns saberes vulgares que aprendo aqui e ali. Um nome de um poeta que nunca li, uma biografia que ouvi falar. Nada de substancial. Nada de um saber que transforma. E por que transformar? Mas falo com propriedade. Como se fosse especialista no assunto. Como é fácil. Por que as pessoas são tão imbecís? Não proponho mudanças. Mas quem é que quer mudar o mundo? Esse mundo não muda nada. É você que quer mudar esse mundo? Onde já se viu isso? Tudo é interesse. Tudo foi sempre a mesma coisa. É um ciclo. Onde já se viu mundo sem guerra, sem fome, sem morte de um e de outro? Não é mundo. Não tem graça. O que vamos dizer pros amigos? O que vamos contar nas mesas de bar? Que ninguém morreu hoje? Que não houve nenhum acidente? Que nenhuma mulher ou homem foi traído essa semana?! Que não estou estressado, cansado, triste e liso? Que ela não me deixou para conhecer outra pessoa? Que a filha daquele nosso amigo parou de ser prostituta de luxo? Que os Estados Unidos não atacarão mais os países. Mundo que é mundo tem guerra, fome, miséria, mentira e puta também. Se não houvesse essa mistura, como iríamos chorar, sentir pena, ter compaixão? Não seria mundo. Seria ilusão. Seria paraíso. Sabemos que nosso mundo nem chega perto dessa utopia. Por que ficar pensando que tudo vai se transformar em algo melhor? Isso é coisa de livro de auto-ajuda. Auto-ajuda? Me economize de imbecilidades. Cada pessoa é apenas mais uma arrogância no mundo. É preciso saber que na vida se sofre muito desde o primeiro contato com o ar imundo que alimenta nossos pulmões. E depois? E depois? Onde? Cadê? Vida lesa. Faz parte. É isso. Tenho que me convencer que isso faz parte. E eu? Deixa pra lá. Você não gostaria de continuar lendo este texto. Espera, espera... Você já mudou alguma coisa na vida?

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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