Sem fim
De fome quase morri. E se não morri é por conta do destino. É ele que responde por mim. Nem sei ao certo se entendi o que estava ao meu redor. Nem água para fazer caldo de pedra a gente não tinha mais. Se não existisse o ar seríamos cadáveres flutuantes. Variei. Não sei de onde veio pensamento tão elevado. O que nos segura na terra? Lembrei de meu pai e minha mãe. Cuscuz com côco ralado de manhã cedo. Que saudade dos dois. Talvez seja a preocupação em cabeça e estômago vazios. Que mundo doido. É coisa do aquecimento da terra. Quando eu nasci não tinha isso que falou alguém por aí. Dizem que o sertão vai ficar mais quente ainda e que depois vai fazer tanto frio que cobrirá a caatinga de neve. Não sei o que é neve. Disseram que é coisa branca que cai do céu. Depois vira água. Acredito nada disso, não. Nem virou mar, o sertão. Sei que foi Deus. E se foi Ele quem quis, assim será. Mas fome é coisa pesada e não tem aquecimento que dê jeito. Nem um cururu, cobra, besouro pra comer eu encontrei. Vontade de comer a primeira coisa mastigável que aparecer na minha frente. A terra é vermelha, eu sei. Cor de sangue talhado. Aí comi. A terra enche o bucho. Enche a alma e os olhos de sensação momentânea, mas não mata o que sinto dentro de mim. O ar é pesado. Tontura passando pelo olhar. Se o vento fosse forte seríamos cadáveres flutuantes de levinho que ficam os ossos. Com perna bamba sem vontade de andar. Assim feito um pluma voando de um lado pro outro. Tão magros e leves. A fome me deixa sem ânimo. Tentei cavar a terra. Encontrar água salobra. Raízes de comer. Tudo em vão. O sertão é um tão sem fim que se eu fosse Deus mandaria chuva pra mim.

3 comentários:
Forte!
vc tá engendrando pela literatura regionalista??! ficou muito bom, de fato! muito bem escrito!!!
só conseguia me lembrar de livros tipo "vidas secas" agora...
pôs até a religiosidade forte da região.
Perfeito!
Muito lindo mesmo!! E eu aqui daria tudo pra matar a fome de um cuzcuz com côco ralado de manhã cedo.
Huuuum... vc tem fome de que? Espero que ao menos a força para se alimentar de esperança exista...
E por falar em exista, viver é sofrido demais. Tanto pro sertanejo quanto pra mim...
Também me lembrei de vidas secas e de baleia, que era tão franzinazinha...
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