Quinta-feira, Maio 01, 2008

Altamira: O início

Do alto de uma castanheira alguém olhou para uma banda do rio: Lá, Altamira. À frente, bem longe está o lugar de onde seremos donos. Não só o rio é nosso, mas tudo. E mirou seriamente. O paraíso e o inferno. O calor da floresta está em nosso favor. Lá tudo pode. A Amazônia é o mundo todo. E caminharam pela beira do Xingú mais seis léguas. Mirem o lugar. Não há governo que governe essa terra. Os índios do Xingú serão escravos. As índias servirão pra fazer barriga. Os peixes e os bichos da mata comeremos aos montes. Lá tem açaí para servir de vinho e cupuaçu pra perfumar a boca. As árvores a gente corta pra fazer casa, barco e ponte. O progresso é com a gente. Fazer fazenda na frente do rio. Trazer gado pra avançar e povoar a região. Construir casa, rua, cabaré. Chamar meninas de Belém para animar homem carente. Mandar padre catequizar índio brabo pra servir pra gente. E se alguma pessoa for contra tudo isso? A gente mata e esconde na mata. Ninguém pode impedir o progresso de Altamira. O verde da floresta é escuro e os que se atrevem a morrer, não são encontrados. Não há como sair vivo daqui porque os peixes, a onça ou a cobra grande devoram. E se aparecer a Matinta Perera? Ofereço tabaco e depois mato a maldita. E se o Boto aparecer em algumas de nossas festas para encantar o povo e levar nossas mulheres? Daremos mulher virgem para passar a noite. Quando o Boto estiver em gozo profundo sairemos de tocaia. Mandamos o infeliz pra depois de sete palmos de terra. E se nada der certo? Na Amazônia tudo é incerto, eu sei. Mas nem mesmo homem que arrancar coração de onça de dois metros, e comê-lo ainda quente, impedirá Altamira.

2 comentários:

Melson Diniz disse...

Uma analogia ao crescimento insustentável, desenfreado, e inconsequente onde o respeito a vida praticamente não existe e os valores reinantes não sempre os da sobrevivência do mais "forte" (para não dizer maligno)...

=]

Gustavo Rebouças disse...

É lindo e é cruel. É mito e é real. É poético também. Adorei o texto.

E a freira metida que lute pelo povo? A gente mata. E o bispo que nos critica? A gente ameaça e ameaça os outros também. E se agente for condenado? Nós recorremos e vamos a novo jugamento, compramos e ameaçamos os jurados, a testemunha chave...
Este história não tem fim e é escrita a cada dia em nossos jornais.

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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