Crianças
As crianças do Brasil não são diferentes das crianças de Chernobyl. Seus infortúnios podem ser sentidos tanto aqui como lá. Nossas crianças são encardidas. Suas peles se grudam aos ossos e seus estômagos clamam por alimentos. Seus sorrisos são enferrujados e suas casas estão nas esquinas das cidades brasileiras. As crianças do Brasil são deformadas como as crianças de Chernobyl. Seus corpos são desfigurados não por mutações genéticas de radioatividade, mas por mãos de inescrupulosos seres inumanos fanáticos pelo prazer sexual doentio e pelo uso de delicadas mãos em trabalho escravo. As crianças do Brasil e de Chernobyl brincam de esconde-esconde com a morte e não sentem medo. Sentem pavor. Em Chernobyl as crianças nascem com membros a mais, com olhos a mais, ou mesmo sem nada. Não há mais Ucrânia. Há crânios. As crianças do Brasil perdem os braços, as pernas, os olhos, o prazer, e mesmo a vida nas lavouras de cana-de-açúcar, nas carvoarias, nos semáforos e nos prostíbulos brasileiros. As crianças do Brasil e de Chernobyl não pensam como criança porque crianças não são. São criaturas sem forma, sem vida. São lixos radioativos. São, sem dúvidas, seres mudos e telepáticos.

3 comentários:
eita piula! que texto legal!! " nao ha mais ucrania, ha cranios" - eu curti. temos chernobyl aqui, eh vero!
belo texto.
Li seus textos.
Adorei!
Parabéns!
Parabéns!
Li os outros e ADOREI!
Vc é muito talentoso que DEUS o conserve sempre assim.
Abraços...
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