Sábado, Julho 21, 2007

Marcão depois da primeira grade de cerveja

O mundo é quântico. A linguagem é quântica. Esse cachorro aí debaixo da mesa é quântico. Esse ar imundo que respiramos é quântico também. Está cheio de coisas quânticas na terra. Aqui mesmo ao nosso redor tem um monte. Só não posso ver. Você me entende? A arte é a quântica dos movimentos nos movimentos se movimentanto. Sabe aquela frase de Dom Quixote: “ A razão da desrazão que da minha razão se faz, de tal guisa a minha razão languesce, que é razão de queixar-me da vossa formosura”. Conseguiu entender agora todo o meu raciocínio? É da literatura em movimento que faz a razão do homem. É a verdadeira energia do elétron pulando do meu corpo. Um monte deles faz isso todos os dias. Pegou o que estou falando? É aquela energia que somente os atores sentem, sabe? - Marcos gargalhou e me fez gargalhar também - Tá vendo esse copo de cerveja? Sim. Tem mais do que tudo de quântico nele. É essa coisa de uns bichinhos chamados elétrons que ficam rodopiando de bunda canastra de uma lado para outro e solta uma energia colorida, entende? Eu fico pensando as vezes... Porra! Por que Einstein era um burro? Mas como um burro? Burro e mentiroso, Benicio. Não conseguiu viajar no tempo com a teoria da relatividade. Também colocou logo um nome desse. Re-la-ti-vi-da-de. Poderia ter colocar “Teoria do futuro e do passado bem próximo mas bem distante”. Fica grande, mas auto-explicativo. Teoria é teoria, né? Não é coisa de macho, não! O que você acha, Benicio? Fan-tás-ti-co. Gostei dessa idéia. Mas acho que você está ficando bêbado! O Einstein, caro Benicio, quando morreu deve ter virado energia quântica. Você está entendendo o meu raciocínio agora? É por isso que estou tomando esse copo de cerveja. Ah, agora estou entendendo. Ele quantificou sua matéria, pegou aí a idéia? Se eu fosse Einstein... Se eu fosse o Einstein...ah se eu fosse... faria o quê, Marcos? Eu? COMERIA TO-DO MUN-DO, PORRA! Como comeria todo mundo? Gargalhamos. Isso. Só um homem como Einstein comeria todo mundo, Benicio. Espera aí, deixa eu imaginar. Você entende o que estou dizendo? Sim. Olha a lábia do cara, pô! No mundo tudo é relativo, é quântico, é ação e reação é a idéia de espaço-tempo. É uma deformação do espaço. Você está deformando o meu espaço, Benicio. Porra, se afasta, cara, você está deformando o meu espaço. Me desculpe! Você já tomou Absinto e sabe como é fluturar no espaço, principalmente, quando se toma de uma vez. Flutuar é quântico, sabia disso? Sabia de nada disso, porra! Bebe aí, Marcão. Deixa de onda. É um corpo girando ao redor do outro em uma sintonia cósmica. É gostoso isso, você não acha? Sim, sim. Aquela maçâ do Newton. Sabe aquela maça que caiu na cabeça dele na hora do sono depois do almoço? Sei, sei. Gerou uma energia tão grande que é sentida até hoje porque é quântica. Já pensou que viagem esse negócio de energia?! Eu consigo sentir essa energia aqui e agora enquanto eu falo contigo, com esse garçom. Garçom, mais uma gela! Viu? Viu o quê? Quando falo produzo uma energia em forma de ondas que vai até as orelhas daquele garçom que somente entende o que digo por que deve ter no mínimo um único neurônio para isso. Tá bom! e se você fosse Newton, comeria todo mundo também? Porra, Benicio! Aí já é demais. Tá me extranhando, porra? O Newton não comia ninguém, pô! Tá me estranhando? Rimos. Mas como tudo é relativo, você poderia ser um Newton diferente. Não um Newton que tivesse que subir nas costas de Galileu para ver mais longe. Concordo! Quer um copo de cereveja? Aceito. Mas como estava dizendo... O que eu estava dizendo mesmo? Perdi todo o meu raciocínio agora. Que esse negócio de ser Newton é foda! Sim! A maçã. Era da maçã que eu estava falando? Era. Mas qual delas? A de Newton ou a de Adão e Eva? Newton adorava uma maça, Benicio. Sei. Vamos tomar mais um copo de cerveja, vamos?! Me deixa propor um brinde, Benicio? É todo seu. Um brinde a mim!! Como assim, um brinde a mim, Marcos? Porra, Benicio eu tô voando agora, tô vendo um monte de elétrons rodando a minha cabeça. Pára, pára, pára!! Um brinde a Adão e Evaaaaa! Os primeiros a terem coragem de comer da fruta proibida e de ver os benefícios da porra ciência para a humanidade! Os precursores da energia quântica de dentro do meu corpo. Garçom, traga a conta por favor, que meu amigo aqui já estrapolou meu limite! Espera, espera, espera. O que é Marcão? - Marção falou baixinho me puxando para perto de si - Como é o nome dessa garçonte? Garçonete? Eita garçom já sei que tem bêbado dando uma de Newton. Gagalhei! Tem problema, não. Eu posso ser o Galileu dele. Como assim? Ah, esquece. O mundo é quântico mesmo. É um movimendo de ação e reação. Um corpo girando ao redor do outro. Deformando o espaço em comum... É um vai-e-vém, é uma troca de energia e depois de comer a fruta proíbida...Uiiii. Imagine a quantidade de energia que se produz. Pára, Pára! Marcão, cara, tenho que ir. Olha encontrei uma “garçonete” que entende muito da física dos corpos. Valeu, mermão. Vou nessa. Deixa comigo, Benicio que vou ensinar bem direitinho pra essa garçonete como o Marcão quer ser servido!

Shirley

É Shirley, a vida anda complicada, não é verdade? Acordei pensando em você. Você que estava naquela parada de ônibus, tão cedo esperando para trabalhar e de repente aquilo tudo aconteceu. Eu te admiro, Shirley, de verdade mesmo. Tão simples você, sua família. Simples nas palavras, leve, embora sua vida seja pesada como a de milhares de domésticas desse país. Como pode você perdoar cinco pessoas que te espancaram do nada? Ainda não entendi. Como pode, Shirley? Você é um exemplo. Imagine, Shirley que aqueles monstros foram chamados de “meninos” pela mídia. Como se algo tivesse que ser amenizado. Se fossem pobres a mídia levantaria a bandeira da redução da maioridade penal. Viu como a hipocresia anda solta? Você sobreviveu para contar e desmascarar essa classe média podre que a gente já sabe com é, mas que nem quer ver. O índio Galdino Jesus não teve a mesma sorte. Se é que posso dizer que apanhar é sorte! Morreu dormindo porque era mendigo. Lembra que foi esta a justificativa dos filhos da classe média do Plano Piloto? Olha, que foi só uma brincadeira de assustar. Imagine se não fosse? Nossas paradas de ônibus não tem proteção, nossos bairros não tem proteção, nem nossa cidade, nem nosso país, nem o mundo, Shirley. Tá difícil! Ontem, tentaram colocar fogo em um prostituta aí em São Paulo, Shirley. Ela que dar tanto prazer, que fica ali parada esperando a classe média chegar em carros de luxo, que tem que se envolver com qualquer um. Hoje, li no jornal que mais uma criança foi achada no lixo. Viu como são as coisas? É Shirley, tá faltando alguma coisa! O que é que tá faltando, Shirley? Me explica!

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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