Quarta-feira, Abril 18, 2007

Gato

Ontem, lá pelas onze da noite, desliguei o computador e abri a janela do meu quarto. Em cima do muro havia um gato. Talvez o mesmo gato que não me deixou dormir na noite passada. Odeio gatos. Não, desculpe-me os amantes de gatos. Na verdade, eu gosto de gatos, mas bem longe de mim. É isso. Bem longe de mim. Odiar seria forte demais. Bem, voltando... O felino me olhou, mexeu o rabo e, vagarosamente, começou a desfilar pelo muro. Olhei seu movimento com desprezo. Sabia que havia sido ele o atormentador da noite passada. Parecia que zombava de mim. Vai embora gato. Pensei. Olhou-me mais uma vez, como se lesse minha mente. E saiu um pouco mais rápido. Foi embora, ainda bem. Mas antes que eu acabasse meu pensamento, tropeçou tão rápido que não teve a oportunidade de usar seus dotes felinos para escapar do que lhe sucederia. Caiu de costas em cima de uma ponta de ferro encostado no muro. Pontas de um portão que seria usado para proteger a casa de algum futuro ladrão. O miado foi enorme. Se é que posso chamar aquilo de miado. Pareceu um grito rasgado, mas bem diferente dos gritos da noite de ontem. Eram gemidos de gatas no cio, quero dizer. Vi que não conseguia se mover. Fiquei assustado e desci as escadas para ver o acontecimento. As três pontas, quando cheguei mais perto percebi que agora eram três, haviam perfurado o gato que parecia estar paralisado, ou morto. Sangue. Muito sangue. Odeio gatos, pensei. Mesmo assim tentei segurar seu pescoço para tirá-lo dali de alguma forma, mas recebi uma mordida tão forte que me sucedeu morrer naquele instante. Olhou-me com os olhos bem abertos. Estava vivo o miserável. E nervoso também. Talvez fosse sua sétima vida. Mas também poderia ser a segunda, ou terceira vida. Não sei. Preferiria que fosse a última. Não vou ajudá-lo, eu disse em voz alta. Miserável! Subi as escadas. Em casa lavei com sabão minha mão arranhada. Sangrava. Voltei a janela e vi que ainda estava preso pelas pontas do ferro. Se contorcia de dor. Quem sabe tivesse umas quatro vértebras quebradas. O estômago perfurado. Não andaria mais, nem miaria sobre meu teto. Preparei-me para dormir, mas não adiantou. O gemido passou a ser tão alto que voltei e acabei com tudo aquilo. Foi rápido. Era sua sétima vida. Sem dúvidas já havia passado pelas outras. Subi as escadas, mais uma vez, e lembrei como me divertia, quando criança, jogando na beira do rio gatos dentro de sacos. Minha mão doeria por ainda algum tempo, mas, finalmente, eu dormiria em paz.

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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