Sexta-feira passada, mais ou menos às nove da noite, tive que sair correndo de casa para pedir emprestado um livro na biblioteca da universidade. Chovia muito forte, mas mesmo assim, consegui pegar o ônibus e dez minutos depois desci sozinho na parada em frente do setor cinco. Ao descer, vi uma mulher seminua, aparência de sessenta anos que parecia conversar com uma outra pessoa. Não só conversava. Gritava. Gesticulava. Dizia seus problemas com tanta eloqüência que tive até receio de escutar. Olhei mas não consegui ver a outra pessoa. Também não pude sair da parada por chover bastante. Do lado da mulher havia dois sacos cheios de lixo. Pareciam latas de alumínio, mas não posso dizer ao certo. Chovia forte. Me preparava para correr quando escutei um gritou por socorro. Moço, pelo amor de Deus me ajude! Fiquei assustado, mas parei. Agarrou meu braço e me puxou até mais próximo de si. Mais assustado ainda, tentei me soltar, mas não consegui. Moço, diga para este homem que já catei todo o lixo que ele precisa. Ele não me escuta. Mas, minha senhora, que homem? Este que está na sua frente. Mas não há homem nenhum aqui! O senhor está cego? Não, mas não vejo nenhuma pessoa! Pare com isso e diga para ele que já catei todo o lixo que ele precisa. O que está acontecendo? Cuidado com a pedra? Se abaixe! Me puxou para baixo e se escondeu atrás de mim. Soltou-me e me virei rapidamente dizendo para que parasse com tudo aquilo. Onde está este homem que a senhora está vendo? Está na sua frente sentado no banco. É ele que comanda os catadores de lixo da cidade. A senhora está bem? Perguntei afoito. Não. Já catei todo o lixo que ele me pediu. Mas ele não quer me dar meu prato de comida. Escute o que ele está dizendo! Ouviu? Ouviu? Olha! Ela disse em voz alta. O lixo é este e quero o meu prato de comida! Passei horas disputando com os urubus, com o podre do lixão e você não quer que eu coma meu prato de comida. Não tenho nem sandália para me proteger. Peguei um sapato velho para catar seu lixo e você não quer pagar meu trabalho da maneira que combinamos. Eu passo horas, moço, sonhando com uma quentinha. Eu passei o dia todo trabalhando! Eu vivo disso, viu? Começou a chorar e soluçava forte. Diga pra ele moço que vivo disso, que cansei de ser mulher que disputa com os urubus essa porcaria de lixo. Toda vida que venho a esta parada ele rasga a minha roupa. Por isso que estou assim. Diz que sou a preferida dele e agora tá aí com esta outra mulher. Tentei manter a calma, a chuva não parava e arrisquei mais uma pergunta com intuito de deixá-la tranqüila. Ainda não sei de onde saiu esta idéia. Me parecia tão absurda ver uma pessoa me pedindo prá falar com pessoas que eu não via. No entanto, acabei perguntando. Tem ainda uma outra pessoa com ele? Tem e preste atenção que ela já tá de olho no senhor. Talvez ela queria pegar seu dinheiro, essa bruxa! São todos gananciosos! Manda ele me dar meu prato de comida, bruxa! Olha aqui o lixo! A mulher me agarrou mais uma vez pelo braço. Pedi para se acalmar, mas ela tirou o resto da roupa e disse bem alto em direção ao homem que agora havia conseguido um homem de verdade. Me abraçou toda suja e me obrigou a dizer que eu era seu homem. Não agüentei e quis me soltar, mas ela me segurou e disse que se eu não falasse com ele, se mataria naquele momento. Meu senhor!!! Eu disse ofegante. O senhor tem que dar o prato de comida desta mulher agora mesmo! Onde já se viu deixar uma mulher trabalhar em um lixão durante horas sem ao menos pagar o que lhe é de direito? O Senhor está fazendo esta mulher de sua escrava e nem ao menos dá o que ela merece? E você que está aí ao lado dele sem fazer nada? Por que não teve a compaixão de ajudar essa mulher? Até então eu fingia. Mas de repente, o homem se levantou e veio em minha direção. O senhor sabe com quem está falando? Não sei, mas acho que deveria ser uma pessoa honesta neste instante. Não vê o desespero dela? E quem é o senhor para defender mulher tão imunda? É o advogado dela? Não importa, respondi. Quero que o senhor cumpra com seu acordo. Enquanto isso, a mulher que se encontrava atrás de mim correu em direção ao banco e pegou uma bolsa onde, provavelmente, se encontraria dinheiro. A outra mulher pegou ao mesmo tempo a bolsa e ambas começaram a trocar insultos. O homem se virou, tirou da cintura um punhal e correu em direção da senhora com a intenção de esfaqueá-la. Segurei seu braço com muita força. Ele tentou se soltar, mas consegui derrubar o punhal e segurar seu pescoço com o intuito de enforcá-lo, enquanto as duas mulheres disputavam a tapas a bolsa. Era mais forte que eu e não consegui. Parecia uma eternidade esta disputa de forças. Em segundos suas mãos se encontravam em meu pescoço quando consegui, quase que perdendo o fôlego, chamar por um colega que se aproximava da parada naquele instante. Socorro! Socorro! Benicio? O que você está fazendo? Me ajuda! Como assim precisa de ajuda? Rápido que não consigo segura-lo! Mas segurar quem? Este homem! Que homem? O que houve com a sua voz? Ele acabou de me soltar! Parei de cabeça baixa tentado respirar. Lá vai! Pegou a bolsa e está correndo. Olha a mulher que está correndo com ele na chuva! Que chuva? Faz dias que não chove! Benicio, está tudo bem? Comecei a tossir. Não há ninguém aqui na parada a não ser nós dois. Acabei de chegar e de longe te vi se movimentado e falando como se houvesse alguma pessoa com você. Parei por algum instante e não acreditei que ele não pudesse ver. Ainda longe vi o vulto do homem e da mulher que corriam. Mostrei mais uma vez. Até que tentou, mas não conseguiu ver. Pensou que eu estivesse brincando e riu. Ora, Benicio! Você está querendo me assustar, não é verdade? Não consegui falar mais nada e no chão, entre os dois sacos de lixo, a senhora se encontrava com o punhal enfiado em suas costas e sangue saindo de sua boca. Chovia ainda muito forte.