Sábado, Fevereiro 17, 2007

Telefonema

Duas horas da manhã. Celular tocando... Alô! Alô! Voz rouca... Quem fala? Alô! Quem deseja? Nada de resposta. O celular é desligado. Dois minutos depois... Celular tocando... Alô?! Quem é? Droga, quem é logo?! Estou dormindo! Calma! Calma! Está fazendo o quê? Como assim? Estou dormindo. Sabia que sou louca por você?! Como é que é? Quem está falando? Adivinhaaaa!!! Sei lá! Por favor, quem está falando? Sabia que adoro ter ouvir falando inglês?! Como é que é?! Isso é uma brincadeira, não é? Olha, vou desligar se você não se identificar! Tá bom, mas só se você sair comigo! Brincadeiras à parte! Quem é você? Quem te deu meu telefone? Ahh, não posso falar. Tudo bem! Boa noite e vai atentar o Cão ligando essa hora pras pessoas. Desliguei. Deixei no silencioso e adormeci em paz. Setembro. Sábado. Dia ensolarado. Hora do almoço e o celular toca novamente. Alô! Adivinhaaa! Ah, meu Deus! Você novamente? Quem é você? Tá louca menina? Está se escondendo da polícia? Não tem vergonha de ligar pras pessoas sem se identificar? Eu adoro a sua voz! O que é isso? Faz amor comigo? Acho que você não entendeu nada! Seu nome, por favor. Não posso dizer. Está bem. Tchau e desliguei o telefone. Dois dias se passaram e, novamente, a mesma ligação. E na semana seguinte recebi outro telefonema e ameacei chamar a polícia. Desliguei na cara. Todos os números eram diferentes, mas sempre a mesma pessoa. As coisas se acalmaram quando no final de setembro um telefonema me pegou de surpresa. Alô! Alô! Quem tá falando? É aquela pessoa que te ligou algumas vezes. Você novamente? Que Droga!! Vou desligar o celular, tchau!! Não, não, por favor, não desliga! Eu preciso de sua ajuda! Por favor! Eu preciso da sua ajuda! Voz ofegante. Mas por que eu iria te ajudar? Olha! Se você me ajudar eu nunca mais te ligo. Como assim? Eu nunca mais ligo pra escutar tua voz. Ainda bem, eu nem te conheço mesmo. Olha, estou aqui em Búzios e preciso que você fale com uma pessoa. O quê? O que é isso? Não, cara é sério! Estou em um quarto com um holandês e queria saber se ele vai pagar só hoje ou o final de semana. Meu Deus! Você é uma garota de programa! Quem te deu meu telefone? Peguei com uma aluna sua. Eu estudo italiano e sempre te vejo. Fala com ele, por favor, e pergunta isso que te disse. Mas você fala sério quando diz que nunca mais me liga?! Prometo! E você não fala inglês, não? A cara, por favor, preciso de sua ajuda! Tudo bem, calma! Passa pra ele. Hello! Yes? Who’s this? Forget it. I’m sorry, but I wanna ask you something. She asked me to ask you if you’re gonna pay her just one day or the whole weekend! What? Who are you? Believe me it’s not important now! Tell this bitch I’m not gonna pay her anything! Anything! Okay? Okay! Thanks! E passou o telefone pra ela. Alô! Oi! O que ele disse? Disse que não te pagaria nada. Como assim? Não pagaria nada pra você. Nada? Impossível! Foi isso o que ele disse?! Veremos! Obrigada. Nunca mais te ligo. Adorei a ajuda e adorei escutar tua voz. Cuidado! Agora fiquei preocupado. Tudo bem! Resolvo isso de outra maneira. Tenho que ir agora. Tchau! Espera! Está tudo bem? Resolvo sozinha. Tchau e desligou finalmente o celular. Dois dias depois escutei no noticiário que um empresário holandês de quarenta e dois anos havia sido assassinado com uma bala no peito em um chalé na praia de Búzios. Uma garota de programa era suspeita, mas que até agora ela não havia sido encontrada.

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Carrinho de Picolé

Ei moço! Moço! Oi, diga! O senhor não sabe de uma pessoa que esteja precisando de alguém para limpar a casa, não?! Não. Não sei. O senhor não tem algum quintal pra eu capinar, cortar uma árvore, alguma coisa pra eu fazer? Não, não tenho. Eu nem moro por aqui. É que passei o dia todo procurando emprego e nada. Acabei de falar com esse padre daqui de Candelária, mas ele também não tem nada. Eu não entendo a vida, não! Já faz um ano e meio que procuro emprego e não tem um ser humano de Deus que me consiga alguma coisa de verdade. Tenho quatro filhos e somente um deles recebe esse dinheiro do governo. Oitenta reais. Só isso para um dos meninos. E dá para sustentar uma família com isso? Dá não senhor! Mas faço milagre. Se uma pessoa ganha muito, nunca dá. Mas um pobre tem que fazer milagre todos os dias. Eu não sei onde esse mundo vai parar. Eu sou um pai de família, honesto e nada das pessoas ajudarem a gente. Peço desculpas, mas não tenho como te ajudar agora. Não, tudo bem! A vida é assim mesmo. Eu precisando de sessenta reais para comprar um carrinho de picolé e nada. Mas a culpa não é sua não. Saí de casa e minha mulher me disse que iria ficar rezando pra gente conseguir esse dinheiro. Olha só como são as coisas, sessenta reais por um carrinho de picolé e o cara me deu até hoje pra conseguir esse valor. Vá lá e diga para ele esperar até amanhã! Não, ele me colocou na frente de um homem que já tem o dinheiro. Me fez esse favor. Hoje, quando saí de casa passei lá no Chapinha. Aquele picolé, sabe? Sei! Pois o dono me disse que nesse carrinho eu colocaria duzentos picolés. Eu venderia tudo na praia, nas ruas, festas, escolas, tudo mesmo. Olha aqui minha carteira pra ver que não estou mentindo. O que é isso?! Eu acredito no senhor! Olha, meu senhor! Abri a carteira e tirei cinco reais. Pegue! Não posso te dar mais. Embora não pareça, mas também tenho as minhas dificuldades. Sou ainda estudante e sei que é complicado conseguir dinheiro. Sei que cinco reais não comprará o seu carrinho de picolé, mas creio que já ajuda. Ajuda sim. Não comprarei o carrinho, mas comprarei comida. E quanto de comida o senhor compraria com cinco reais? Dois quilos de arroz e dois de feijão. A mulher lá em casa cozinha um quilo de feijão que dá para dois dias e o arroz dura um pouco mais. Fico contente, então. Obrigado, o senhor salvou meu dia. O que é isso, rapaz?! Pare com isso! Vá em busca de mais dinheiro. Espero que o senhor consiga mais alguma coisa. Se Deus não conseguir pra mim sessenta reais é porque não tinha que ser mesmo. Disse para eu também ir com Deus e foi embora andando bem calmo, com a cabeça baixa, talvez pensando em contar a mesma estória para alguma outra pessoa que encontrasse na rua.

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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