É só disso que lembro até agora
Sei que os dois rapazes entram num carro cinza. Alguém disse que o motorista era amigo deles. Sei lá o nome do cara! Já fazia alguns dias que os rapazes não apareciam em casa. Lá no bairro surgiu o boato que faziam parte de algum grupo criminoso. Ninguém da família sabia de nada, de algum esquema ou de algo que pudessem suspeitar. Os meninos eram trabalhadores, falou uma pessoa que estava por perto. Perguntaram pro dono do bar se ele havia visto o motorista do carro. Isso porque foi na frente de um bar que os três se encontraram. Não sabia ou não quis comentar nada. As mães procuraram a polícia. Os rapazes estão envolvidos com drogas? Não sabemos, doutor. Qual a idade deles? 22 e 19. Sei. Olha, daremos uma rodada aí pelo bairro pra ver alguma coisa, mas acho melhor as senhoras procurarem nos hospitais, no ITEP. Possa ser que alguma coisa tenha acontecido, sei lá. Sumiço assim, de uma hora para outra, me parece estranho. Dias sem notícias. Seu doutor! Acho que meu filho tinha uma dívida de mil e quinhentos reais. Escutei ele falando alguma coisa pro amigo antes de sair de casa. Acho que foram resolver algum problema. Falaram de um tal de Negrinho. E esse dinheiro era pra droga? Não sei. Às vezes, eles apareciam com os olhos vermelhos aí eu perguntava se aquilo era maconha. Ficava com medo de saber alguma coisa e fingia que não sabia de nada. Mas acho que não é droga, não. Sei que os dois chegaram com um som lá em casa na segunda-feira. Perguntei como haviam comprado aquilo e começaram a rir de mim. Pode deixar, dona. Procuraremos. Fique calma e vá pra casa rezar por seu filho. Como é mesmo o nome deles? E a senhora também faça a mesma coisa. No mesmo dia um menino veio dizer que perto do barraco de seu pai, um cachorro faminto que rondava o bairro a procura de qualquer coisa pra se saciar apareceu arrastando um braço. Gritando chamou o pai. Tiveram que jogar pedra no cachorro pra ver se parava de arrastar o braço. Depois andaram uns trezentos metros pra dentro do morro e encontraram duas pessoas, uma do lado da outra. Os corpos estavam inchados e queimados do sol. Fedia muito. Os braços dos cadáveres estavam cortados e cada um havia recebido um tiro na nuca. A população do bairro correu pra ver. Logo as mães apareceram. Caíram sobre os corpos e gritaram por bastante tempo. Uma tornou-se histérica e puxava os cabelos. O povo que escondia o nariz para não sentir o odor do lugar era o mesmo que chorava com as mães. Alguém gritou: Foi o Negrinho! Foi ele! Depois desapareceu quem havia falado. A polícia isolou a área. Pediu que o braço arrastado pelo cachorro fosse levado para o local. Chamou o pai e o menino que haviam vistos os corpos para irem à delegacia prestar depoimento. O cachorro chegou perto de outro braço, cheirou e saiu amedrontado quando um policial se aproximou. Uma mãe se levantou e ficou parada por um bom tempo enquanto o povo prestava atenção a cada movimento seu. Deu dois passos pra trás e começou a rir. Ria e chorava. A outra mãe começou a gargalhar descontroladamente no mesmo instante. O povo se afastou um pouco. As duas se abraçaram. Alguém disse que era um momento de loucura. Natural nessas horas. Uma senhora que estava ao redor passou mal e teve que ser retirada às pressas do lugar. As duas mães rodavam em ciranda e riam ainda mais. O povo se afastou mais uma vez. Um policial vendo a situação das duas mulheres se emocionou e saiu do lugar com os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. As duas pararam e caíram sentadas no chão. Não são nossos filhos, gente! Não são! Pela graça de nosso senhor Jesus Cristo, esses não são nossos filhos. Ainda bem que Deus nos escutou! Riam de alegria. O povo ficou decepcionado. Alguns reclamaram de terem perdido tanto tempo vendo a reação das duas. Talvez estivessem vivos por aí. Mas ainda não se saberia. Logo o lugar ficou vazio. Os policiais mantiveram a área isolada, mas resolveram partir para outra diligência mais importante naquele momento. Apenas o cachorro aproveitou a saída de todos pra se aproximar. Rosnou, olhou cabisbaixo e circulou o lugar. Pegou o mesmo braço que havia estado antes e correu pra dentro do matagal antes que alguma pessoa chegasse para recolher os corpos. É só disso que lembro até agora.

2 comentários:
Eu acho que os dois rapazes de 22 e 19 anos são os verdadeiros assassinos, a mando do negrinho de quem estavam devendo R$ 1.500,00. Nesta história em que Só as mães são felizes. Ah sim e o cachorro também.
esse gustavo ai comentou exaaatamente oq eu ia dizer: se não são os mortos, são os assassinos!! rs
gosto do cachorro... tem um apetite indiferente que me agrada!
- há sempre animais simpáticos na literatura!
beniiicio, tava morta de saudades do teu blog já vice heheh
bjs
Postar um comentário