Amarelos
O senhor viu o meu pé? Era feio, não era?! Fedia de vez em quando, mas ainda preferia daquele jeito. Tenho minhas razões, você sabia? Como, meu senhor? Não, não, eu não sentia mais esse fedor que o senhor está pensando, não! Depois a gente se acostuma e acaba gostando. Não é assim a vida? A gente se acostuma com as coisas e gosta. Por exemplo. Eu cato lixo na rua e gosto. Dá dinheiro. No começo era muito difícil. Sol brado dessa cidade. Um monte de gente competindo. Cada um que queria ter o saco maior que o outro. Mas você tem que ter seu espaço. Aí fui indo, fui indo, fui e acabei conquistando um lugar novo que a prefeitura conseguiu pra colocar o lixo da cidade. É um pouco longe daqui. Foi um lixeiro, amigo meu de um caso antigo que me disse. Mais tive que trocar por sexo a informação. Ele sempre fazia isso. Eu também precisava. Na verdade, adorava quando ele vinha me procurar. Mas eu fazia de tudo pra que ele não percebesse que a ferida andava comigo. Sei lá como é esse povo da rua. Depois não entende as coisas. Pensa que a gente é suja. Mas também não posso ficar contando pro senhor as minhas intimidades, não é? A não ser que o senhor tenha alguma coisa interessante pra oferecer! Tá, tudo bem, eu entendo. Não faço o seu tipo. Mas não custa tentar! Como? Sim, pra onde eu ia, ela me acompanhava. Virou companheira inseparável e passamos tantas coisas juntas. Até correr da polícia corremos. Isso foi lá na Ribeira quando eu tava pedindo dinheiro prum grupo de gente rica. Que rica que nada! Se fossem rico me davam dinheiro. Bando de miserável. Levantei o pé e disse: Vão me dar dinheiro, não? Vão me dar dinheiro, não? Pois olha. Dei uns dois pulos com o pé pra cima daquela gente e um bando menininha começou a gritar. Que foi? Tão com medo da minha amiga? Ah é, vocês não tem amigas, não? Essa aqui pelo menos anda comigo pra onde eu vou. E vocês, e vocês?! Aí o dono do bar me deu um tapa na cara que caí. Perdi a noção do que estava acontecendo. O mundo deu uma girada, mas não chorei nada. Vi tudo escuro. Fiquei ali parada. Senti que alguma pessoa puxou meu cabelo. Deveria ser o dono do bar. Mas ele me pagou! Me pagou! Miseráve! Chamaram a polícia. Mas eu corri. Sem direção, mas corri. O pé começou a ficar quente, formigando e parei umas três quadras depois em um beco pra respirar um pouco. Cocei a danada da ferida que saiu sangue. Depois deu um prazer quase igual ao sexo com o lixeiro. Foi um alívio. Cheguei à noite no barraco e vi como ela tinha crescido. Era bem pequeninha. Vermelhinha de nada mais coçava que não parava mais. Depois sempre dava um alívio! Aí surgiu uns catombo e a pele ficou um pouco enjilhada e mais vermelha. O pior que só era no pé e depois passou pra perna. No domingo passado peguei um cachorro para lamber a ferida. Foi o lixeiro que me disse que lambida de cachorro é que era bom. Mas que tinha que ser cachorro da rua. Deu certo. Na verdade nunca mais senti nada. Às vezes até esquecia que tinha pé, perna. Andava como se fosse com uma só. Estranho, né? Passei depois de um tempo na frente do dono bar da Ribeira. Só passei assim e nem quis olhar direito. A dor da pancada que levei no rosto. Lembrei logo. Ninguém bate assim nos outros não, dono. Me reconheceu e ficou olhando. Percebi. E quando eu ia chegando no meu barraco dois camaradas me abordaram e não contaram conversa. Me bateram de pau. Você ainda vai mostrar essa perna podre lá no bar? Esse pé imundo nunca foi lavado, sua leprosa, leprosa! Riam. Eu dizia pra pararem. Gritei. Fingi um choro, mas percebi que as pauladas na pena não doíam. Então fiquei calada. Levei um soco no estômago e outro no olho e esses dois doeram muito. O mais forte dos caras olhou bem pra mim. Pude sentir o bafo dele falando um monte de coisa. Se tu mostrar essa perna de novo lá no bar eu te enterro viva! Depois de mais uns chutes saí me arrastando e só acordei no outro dia com um cachorro do meu lado lambendo a ferida. Era o mesmo. Entrei no barraco. Olhei num espelho velho e vi que meus olhos estavam roxos. Eu não sentia nada do joelho pra baixo. Nem coçava, nem dava prazer. Bati o pé algumas vezes. Parecia dormente. Todo meu corpo doía. “- Você ainda vai mostrar essa perna podre lá no bar? Esse pé imundo nunca foi lavado, sua leprosa, leprosa! Senti o bafo novamente. Tontura. Eu te enterro viva! Eu te enterro viva, se tu mostrar... eu te enterro viva, perna, pé podre no bar, eu te enterro podre, viva, bar, lavado leprosa, enterro teu pé, viva, se tu mostrar... Isso passou o dia todo na minha cabeça como se fosse uma música. A barriga e as costas doíam. À noite decidi fazer alguma coisa e passei quase uma hora amolando um facão enferrujado que eu tinha no barraco. Aquilo não podia ficar assim. Cadê a dignidade da gente? E pobre não tem isso, não? Depois peguei um pedaço de pano e um saco. Levantei o pé e coloquei num tamborete. Olhei pra minha amiga. Lembrei que tantas vezes havia me ajudado a ganhar esmola. O povo olhava pra ela e tinha pena de mim, da gente. Eu tinha prazer e tinha dinheiro no final do dia. Comprava pão e um pouquinho de manteiga. Às vezes tinha o luxo de tomar um café e até comprar alguma coisinha pro cabelo, eu comprava. Mas tudo tinha acabado entre a gente. Ela não me dava mais prazer e nem dinheiro. Nem coçar eu sentia mais. E apanhei do povo na rua. As pessoas eram miseráveis. Talvez, tenha sido isso. Ela percebeu antes de mim que essa vida de viver de esmolas não era das melhores e que era hora de parar. Quem sabe morrer não seria mais fácil? Peguei o facão e olhei mais uma vez. Segurei firme e mirei duas vezes bem abaixo do joelho. Depois levantei o facão acima de minha cabeça. Fechei os olhos e abaixei meu braço com muita força. Abri os olhos assustada. O facão não havia cortado muito e estava preso na canela. Retirei com um pouco de dificuldade. Viu uma cor amarela escorrendo pela perna. E pela segunda vez mirei debaixo do joelho e lancei de olhos fechados aquele facão enferrujado. Cai de ombro no chão com o impacto. Olhei pro teto um pouco tonta. Você ainda vai mostrar essa perna podre lá no bar? Esse pé imundo nunca foi lavado, sua leprosa, leprosa! O facão já não estava na mão. Se tu mostrar essa perna de novo lá no bar eu te enterro viva! Eu te enterro viva, se tu mostrar eu te enterro... Não doeu nada. Só susto. Respirei. Senti que suava frio. Olhei ao redor e vi a canela largada de lado. Um dos meus dedos se mexeu. Peguei um pedaço de pano que tinha colocado ali perto e enrolei no joelho. Logo uma mancha vermelha e amarela se formou no pano. Era pus. Não sei. Dei dois nós ao redor do joelho. Coloquei o pedaço da perna em um saco plástico. Deu uma saudade. Uma vontade de coçar. Canela e pé agora pareciam ser mais pesados. Me arrastei e peguei uma pá pra me servir de muleta. E foi aí que me lembrei do dono do bar. Pingava uma cor amarelada da perna. Me senti tonta. Resisti e fui em direção ao bar com a maior dificuldade do mundo. Esperei que ele abrisse. Que ficasse cheio de gente. A minha visão estava turva. No saco pé e canela. Se eu não olhasse pra perna parecia que ela ainda estava li. Parada como nos últimos dias. Bar lotado. Bar mais lotado ainda. Menininhas que redescobriam a Ribeira. Miseráveis que se passavam de ricos. Não vi segurança. Nem polícia, nem o dono do bar. Parei com dificuldade na frente de uma mesa com algumas pessoas. – Uma esmola, por favor? Todos ficaram calados como não se não tivessem escutado nada. Alguém pode me ajudar? É que só tenho uma perna. A vida é difícil. Não tenho perna, gente! Nada de resposta. Uma pessoa que estava falando nem olhou pra mim. Uma mulher se levantou e saiu resmungando. Uma esmola, pelo amor de Deus? Tem não, dona. Perdoe. Deixe pra outro dia. Esse mesmo levantou a mão. Mais uma cerveja, garçom! Fiquei cega, louca. Outro dia? Outro dia? Comecei a gritar. Outro dia? Eu quero é agora mesmo. Quero uma esmola agora mesmo. Foi aí que o dono do bar veio correndo com os homens que me espancaram. A senhora está louca? Quis me empurrar. Louca, eu? Eu quero que o senhor cumpra a sua promessa. Cuspi em sua cara. Todos fizeram um ar de nojo. Me segurou pelo braço e chutou minha única perna. Caí de costas e o mais forte deles veio até mim. Pude sentir seu bafo. O que foi que eu te disse? Pisou com o sapato em minha mão e gritei. - Leprosa eu te enterro viva! Depois de um tempo comecei a rir descontrolada. Levanta e vai embora! Ficaram os três me olhando. Levantei me apoiando em um poste e gritei alto. Olha aqui miseráveis. Esta foi minha melhor amiga e entrego pra vocês de presente. Gargalhei. Abri o saco e tirei pé e canela. Uma menina começou a chorar. Uma mulher deu grito fino e fechou os olhos com as mãos. O dono do bar ficou assustado e se afastou puxando os capanga pra trás. Pude ver um olhar de medo. Deu um prazer. Eu quero uma esmola! Eu quero minha esmola agora. Algumas pessoas saíram do bar correndo. Andei em direção aos homens que haviam me espancado. Se afastaram. Alguém pediu pra chamar a polícia. Fiz a maior bagunça quando joguei a perna em cima de uma mesa cheia de garrafas de cerveja. Um dos capangas partiu pra cima de mim, mas o cachorro que lambeu minha ferida apareceu do meu lado, feroz com nunca, e se colocou em posição de ataque pra qualquer um que chegasse perto. Os animais são melhores que homens. Depois foi até a mesa e começou a lamber minha perna. O cabra voltou com medo. Gargalhei. O povo correu do bar. Sou leprosa por causa de vocês! Não dói mais nada. Falei com prazer. O cachorro puxou a perna pro meu lado. Eu vim pra ser enterrada viva e já trouxe a pá pra facilitar o trabalho de vocês. Eu quero ser enterrada viva! Alguém me escutou?! Não foi isso que vocês me prometeram quando me espancaram. Olhei pra eles. Eu tenho coragem. Covardes. Eu só queria uma esmola.

8 comentários:
putz... adorei o testo. Bem que vc disse que era pesado!!! vc tem muito talento pra isso cara!!! go ahead!!!
Nossa, Ed, fiquei toda arrepiada! Que texto, hein!? Forte, muito forte, mas segue a linha "caleidoscópio literário" que tanto gosto!!! Parabéns de novo! Quando você ficar famoso posso dizer que sou sua amiga???rsrsrs. beijocas!
Benício, conheci teu blog pelo site dos jovens esfirras. Gostei muito do que li.
abraço.
Parabéns, pelo que li tem bastante qualidade literária.
http://dudv-descarrego.blogspot.com/
Minha nossa, aff tô chocada!
Ainda bem que segui seu conselho (saco plástico-rsrs).
Muito bom...adorei!!! a cada texto tem se superado!
beijo Gisele
Eca. Muito doido. Adoro quando os cachorros se dão bem. Eca. Existe algum nome para pessoas que alimentam um animal com partes de corpos humanos, ou de seu próprio corpo?
Ótimo, há uma intertextualidade com o texto biblíco sobre São Lázaro,a reflexão sobre a saúde e a vida miserável do brasileiro destacam-se com evidência no texto através dos símbolos: a perna doente, o cachorro de rua,a esmola e a indiferença (ausêcia de fraternidade) e subjacente o caos da saúde pública, aliviado pelas lamidas do cachorro, parabéns. Bjs Tia Graça
Amigo, q diabo é isso?! Essa tal sugeita é mais homem do q nós todos juntos!
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