Shirley
É Shirley, a vida anda complicada, não é verdade? Acordei pensando em você. Você que estava naquela parada de ônibus, tão cedo esperando para trabalhar e de repente aquilo tudo aconteceu. Eu te admiro, Shirley, de verdade mesmo. Tão simples você, sua família. Simples nas palavras, leve, embora sua vida seja pesada como a de milhares de domésticas desse país. Como pode você perdoar cinco pessoas que te espancaram do nada? Ainda não entendi. Como pode, Shirley? Você é um exemplo. Imagine, Shirley que aqueles monstros foram chamados de “meninos” pela mídia. Como se algo tivesse que ser amenizado. Se fossem pobres a mídia levantaria a bandeira da redução da maioridade penal. Viu como a hipocresia anda solta? Você sobreviveu para contar e desmascarar essa classe média podre que a gente já sabe com é, mas que nem quer ver. O índio Galdino Jesus não teve a mesma sorte. Se é que posso dizer que apanhar é sorte! Morreu dormindo porque era mendigo. Lembra que foi esta a justificativa dos filhos da classe média do Plano Piloto? Olha, que foi só uma brincadeira de assustar. Imagine se não fosse? Nossas paradas de ônibus não tem proteção, nossos bairros não tem proteção, nem nossa cidade, nem nosso país, nem o mundo, Shirley. Tá difícil! Ontem, tentaram colocar fogo em um prostituta aí em São Paulo, Shirley. Ela que dar tanto prazer, que fica ali parada esperando a classe média chegar em carros de luxo, que tem que se envolver com qualquer um. Hoje, li no jornal que mais uma criança foi achada no lixo. Viu como são as coisas? É Shirley, tá faltando alguma coisa! O que é que tá faltando, Shirley? Me explica!

3 comentários:
Nossa, meu amigo,eu com certeza não teria essa resognação, e vemos que ela perdoa verdadeiramente,estou cansada, desses "meninos", protegidos por pais e figurões, dessa forma, nunca iremos "evoluir".
Brilhante, Benício.
Como sempre um texto brilhante do nosso amigo Ednaldo.
Abraços!!!
Tenho a certeza de que seus leitores estão encantados com o seu modo atual de escrever.
Tielle
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