Gato
Ontem, lá pelas onze da noite, desliguei o computador e abri a janela do meu quarto. Em cima do muro havia um gato. Talvez o mesmo gato que não me deixou dormir na noite passada. Odeio gatos. Não, desculpe-me os amantes de gatos. Na verdade, eu gosto de gatos, mas bem longe de mim. É isso. Bem longe de mim. Odiar seria forte demais. Bem, voltando... O felino me olhou, mexeu o rabo e, vagarosamente, começou a desfilar pelo muro. Olhei seu movimento com desprezo. Sabia que havia sido ele o atormentador da noite passada. Parecia que zombava de mim. Vai embora gato. Pensei. Olhou-me mais uma vez, como se lesse minha mente. E saiu um pouco mais rápido. Foi embora, ainda bem. Mas antes que eu acabasse meu pensamento, tropeçou tão rápido que não teve a oportunidade de usar seus dotes felinos para escapar do que lhe sucederia. Caiu de costas em cima de uma ponta de ferro encostado no muro. Pontas de um portão que seria usado para proteger a casa de algum futuro ladrão. O miado foi enorme. Se é que posso chamar aquilo de miado. Pareceu um grito rasgado, mas bem diferente dos gritos da noite de ontem. Eram gemidos de gatas no cio, quero dizer. Vi que não conseguia se mover. Fiquei assustado e desci as escadas para ver o acontecimento. As três pontas, quando cheguei mais perto percebi que agora eram três, haviam perfurado o gato que parecia estar paralisado, ou morto. Sangue. Muito sangue. Odeio gatos, pensei. Mesmo assim tentei segurar seu pescoço para tirá-lo dali de alguma forma, mas recebi uma mordida tão forte que me sucedeu morrer naquele instante. Olhou-me com os olhos bem abertos. Estava vivo o miserável. E nervoso também. Talvez fosse sua sétima vida. Mas também poderia ser a segunda, ou terceira vida. Não sei. Preferiria que fosse a última. Não vou ajudá-lo, eu disse em voz alta. Miserável! Subi as escadas. Em casa lavei com sabão minha mão arranhada. Sangrava. Voltei a janela e vi que ainda estava preso pelas pontas do ferro. Se contorcia de dor. Quem sabe tivesse umas quatro vértebras quebradas. O estômago perfurado. Não andaria mais, nem miaria sobre meu teto. Preparei-me para dormir, mas não adiantou. O gemido passou a ser tão alto que voltei e acabei com tudo aquilo. Foi rápido. Era sua sétima vida. Sem dúvidas já havia passado pelas outras. Subi as escadas, mais uma vez, e lembrei como me divertia, quando criança, jogando na beira do rio gatos dentro de sacos. Minha mão doeria por ainda algum tempo, mas, finalmente, eu dormiria em paz.

11 comentários:
Macabro ...
Júnior, mais uma vez, quando leio o seu texto, me surpreendo com algum sentimento inusitado, para o momento, para o que faço no momento, que é ler um texto de um amigo. O seu texto me proporciona uma leitura rápida que não é superficial, boba... qualquer adjetivo do tipo. O seu texto chega a ser complexo, a começar pelo organização dos discursos, ora parecem indiretos, ora diretos, indiretos livres. Às vezes, tenho certeza de que leio o narrador; noutras vezes, o narrador que passa a ser personagem, mas que não abre mão do papel de narrador. O laboratório está fechando. Depois voltarei a escrever. Cássio.
Malvadão!
Olá! Olha só, não disse que ia aparecer por aqui? Cá estou eu, vasculhei o seu blog geraaaal, e gostei mto dos seus textos. Cheguei a prender a respiração de tão envolvida que fiquei na expectativa que vc cria nas suas narrações. Parabéns principalmente pela criatividade!! Adorei o texto da catadora de lixo, muito louco! Achei vc um malvado com o pobre do gato, vou reavaliar o meu perfil do orkut agora (hehehe..).. Ah, e depois queria aqui o que vc pensa sobre Lula.. se é "Capitu" mesmo ou se o mistério foi resolvido. Cya!
Benicios...
que maldade,como você pede para uma futura veterinária ler logo um texto onde um pobre gato(e olhe que não sou fã de gatos)morre!!
Estou arrasada!!
Very very sad.
Beijos
não preciso dizer q adorei srrss
mas td q me veio a cabeça foi:
"poxa, eu gosto de gatos!!"
esperando texto novo viu?! ;)
deixa de ficar fazendo suspense qnd te vejo e poe logo os q tem em casa aqui
bjão!
sucesso nessa vida de artista =)
fala, camarada!
ei..cá entre nós...eu também não gosto de gatos.eles sao metidos a superiores.e eu não sou egipcio.
belo texto.
abraço!
miltonpinto
comecei não gostando do texto por preconceito, já que sou dona e amante de gatos. mas a leitura prosseguiu e a descrição da cena me fez mudar de idéia.
seus textos tem uma vida, sabe? fazem a gente imaginar a cena bem ali na frente, nítida e forte. gostei bastante.
alegre de ter descoberto seus textos.
(a menina que gostou do texto da desumbigada e voltou para dar um oi na bienal.)
Cara, é interessante como a plurisignificação que você dar ao texto cria uma dimensão universal a um fato supostamente corriqueiro e irrelevante. Valeu. Parabéns!!
Alexandre Paz
Vcs são nojentos, pessoas que odeiam qualquer animal. Assassinos como vcs são odiáveis. Foda-se se vc prefere um ou outro, assassinato é condenável em qualquer situação.
Espero que vcs morram muito antes de conseguirem falar absurdos como esses novamente. Eu sei muitas maneiras de matar pessoas, como qualquer um, mas não mato aqueles que eu não gosto e não venham me falar da superioridade humana...Frases do tipo: "mas um animal pode ser morto, pessoa não"...Eu nunca vi um animal estuprar, matar por prazer, roubar, trapacear....Em que o homem é melhor que qualquer gato?
Porque vcs não usam essa raiva dos inocentes animais para algo construtivo? Quem não gosta de gatos, ajude os cachorros abandonados e vice-versa, depois cale a boca em relação a sua preferência .
Em quê vcs se acham melhor que qualquer protozoário? Vcs se acham melhor por serem dotados de inteligência? Cadê a inteligência numa pessoa que diz odiar um ser que não fez nada de ruim? Cadê a inteligência numa pessoa que não sabe respeitar a vida?
RÍDICULOS ASSASSINOS
Esta é uma obra de ficção. Entenda isso. Atenciosamente, Benicio.
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