Carrinho de Picolé
Ei moço! Moço! Oi, diga! O senhor não sabe de uma pessoa que esteja precisando de alguém para limpar a casa, não?! Não. Não sei. O senhor não tem algum quintal pra eu capinar, cortar uma árvore, alguma coisa pra eu fazer? Não, não tenho. Eu nem moro por aqui. É que passei o dia todo procurando emprego e nada. Acabei de falar com esse padre daqui de Candelária, mas ele também não tem nada. Eu não entendo a vida, não! Já faz um ano e meio que procuro emprego e não tem um ser humano de Deus que me consiga alguma coisa de verdade. Tenho quatro filhos e somente um deles recebe esse dinheiro do governo. Oitenta reais. Só isso para um dos meninos. E dá para sustentar uma família com isso? Dá não senhor! Mas faço milagre. Se uma pessoa ganha muito, nunca dá. Mas um pobre tem que fazer milagre todos os dias. Eu não sei onde esse mundo vai parar. Eu sou um pai de família, honesto e nada das pessoas ajudarem a gente. Peço desculpas, mas não tenho como te ajudar agora. Não, tudo bem! A vida é assim mesmo. Eu precisando de sessenta reais para comprar um carrinho de picolé e nada. Mas a culpa não é sua não. Saí de casa e minha mulher me disse que iria ficar rezando pra gente conseguir esse dinheiro. Olha só como são as coisas, sessenta reais por um carrinho de picolé e o cara me deu até hoje pra conseguir esse valor. Vá lá e diga para ele esperar até amanhã! Não, ele me colocou na frente de um homem que já tem o dinheiro. Me fez esse favor. Hoje, quando saí de casa passei lá no Chapinha. Aquele picolé, sabe? Sei! Pois o dono me disse que nesse carrinho eu colocaria duzentos picolés. Eu venderia tudo na praia, nas ruas, festas, escolas, tudo mesmo. Olha aqui minha carteira pra ver que não estou mentindo. O que é isso?! Eu acredito no senhor! Olha, meu senhor! Abri a carteira e tirei cinco reais. Pegue! Não posso te dar mais. Embora não pareça, mas também tenho as minhas dificuldades. Sou ainda estudante e sei que é complicado conseguir dinheiro. Sei que cinco reais não comprará o seu carrinho de picolé, mas creio que já ajuda. Ajuda sim. Não comprarei o carrinho, mas comprarei comida. E quanto de comida o senhor compraria com cinco reais? Dois quilos de arroz e dois de feijão. A mulher lá em casa cozinha um quilo de feijão que dá para dois dias e o arroz dura um pouco mais. Fico contente, então. Obrigado, o senhor salvou meu dia. O que é isso, rapaz?! Pare com isso! Vá em busca de mais dinheiro. Espero que o senhor consiga mais alguma coisa. Se Deus não conseguir pra mim sessenta reais é porque não tinha que ser mesmo. Disse para eu também ir com Deus e foi embora andando bem calmo, com a cabeça baixa, talvez pensando em contar a mesma estória para alguma outra pessoa que encontrasse na rua.

2 comentários:
Parabéns pelo texto.
Muito forte e sutil ao mesmo tempo...
Abraço
Ítalo
Meu Deussssssss!! Quero ser a primeira da fila de autógrafos, no ia do lançamento do seu livro.. qualquer um.. seja de que estilo for. Com certeza terá tamto sucesso quanto dos seus textos deste blog. Parabéns Tuto... vc é demaisssssssssss!!! E ainda canta música latina kkkkkkkkkkk beijo
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