Domingo, Dezembro 31, 2006

Manias

Quando a pessoa começa a ficar famosa, chega a mania de falar de si em terceira pessoa. Vamos dar um exemplo da pessoa que vos fala, ou vos escreve. Não importa agora. Seria mais ou menos assim: Rapaz, Benicio só quer falar agora em terceira pessoa. Virou chique. Na verdade virou um besta. Talvez seja mais uma de suas manias. Deixa eu te falar uma coisa. Outro dia peguei Benicio com uma caneta em uma mão e um pedaço de papel na outra. Descobri que era para escrever nossas frases e usar em seu blog. Virou um chato. Toda hora diz: Esta frase daria o começo de um bom texto. Ei, visita meu blog! Você sabia que tenho um blog? Cuidado que ele pode estar furtando as tuas palavras. Mas não pára por aí. A caneta vai com ele para todos os cantos, sempre em alguns dos bolsos da calça jeans. É uma caneta azul marca Uni-ball – eye - micro. E só é azul por não ter encontrado a caneta preta na livraria do Campus. Pois é! Sem esta caneta seria como se estivesse nu. Que louco! Fica passando a mão pelo bolso vazio e resmunga: esqueci minha caneta, que droga! Acho que já faz parte da vestimenta. Se uma mulher que sai sem brincos ou sem batom se sente um pouco nua, sem a caneta é a mesma coisa. E outras manias. Quando está no banheiro nunca abre a torneira sem que não seja com um pedaço de papel. Esqueci de dizer. Só abre a porta do banheiro com os pés para não ter que pegar na maçaneta. Quanto não há papel-toalha, geralmente, levanta a perna e dar um golpe de Karate na torneira para abri-la. A mesma coisa para fechá-la. Contou-me que essa mania começou há muito tempo em uma aula de biologia em que seu professor conversava sobre bactérias, coliformes fecais das cordinhas do banheiro y otras cositas más. E as manias foram aumentando. Contaram-me que ele não encosta os lábios no talher quando está comendo. Sente nojo e arranca a comida com os dentes. Que cheira o livro antes de ler, principalmente, quando é livro novo. E que volta antes de sair, umas três vezes para checar se a porta do seu quarto está fechada. Certo dia sua namorada pediu para que assistisse ao filme “O Aviador”, que fala de um homem que possui as manias mais estranhas do mundo. Mas ele se recusou dizendo que não gostaria de ver coisas exageradas. Como se suas manias não chegassem também a esse ponto! Seu amigo me disse que quando ele era criança costumava estudar com um Kimono de Karate durante horas e a razão era, simplesmente, para não ser perturbado pelas moscas e mosquitos que pudessem pousar em seu braço. Acabou até fazendo um trabalho para a feira de ciências da escola em que estudava a nocividade desse inseto repugnante. Mas quando não havia moscas passava horas estudando nu e andando nu pela casa como se nada estivesse acontecendo. Parece que o rapaz tinha coisas estranhas mesmo, pois, lá pelo segundo grau, quando estava triste, subia até o topo do pé de ciriguela de sua casa para ficar pensando na vida. Não sei se posso ficar contando tantas coisas assim, mas creio que ninguém vai sair por aí dizendo para Benicio as coisas que estou contando, não é verdade? As manias começam e deixam marcas. Às vezes são até benquistas. Mas eu conheço mais sobre esse meu amigo. Quando pega alguma pessoa para conversar, explora tudo e sai sabendo de coisas que até mesmo a pessoa não gostaria de contar. Tem mais, esse sujeito tem uma capacidade enorme de armazenar essas informações e diz que a história da vida privada pode influenciar muito nas decisões. Percebi depois de muitas observações, que quando B., assim que irei chamá-lo a partir de agora, está conversando e não se interessa mais pela conversar, começa a passar a mão na cabeça. Primeiro passa uma, outra, coça, depois coça com a outra e assim vai num ritual que acabou se tornando em mais uma mania inexplicável. O pior mesmo é falar inglês na sua frente. Não que ele seja o máximo nessa língua, mas que adquiriu a mania de ficar no pensamento corrigindo as pessoas. Lógico que as pessoas não sabem, mas cada erro, acerto, pronúncia errada, sotaque puxado é corrigido mentalmente por nosso amigo. Em restaurantes, a coisa ser torna mais dolorosa, neste caso para mim, que não tenho essas frescuras. Mas é chato almoçar com uma pessoa que olha se o garçom coloca o polegar dentro do prato, se toca com os dedos nas bordas do copo deixando as digitais. Parece até que ele não sabe que é necessário ao corpo ter contato com bactérias, sujeiras, para adquirir imunidades. E que não precisa ficar limpando os pratos com quardanapos quando o garçom desaparece por algum instante. É até mal-educado, eu disse. Mal-educado é garçom sujo, me respondeu. Talvez ele esteja certo, errado, mas sei que tenho que parar agora para não criar a mania de falar das manias de Benicio e nem vocês ficarem com a mania de lerem este texto sobre as manias de meu amigo. Quem sabe em alguma outra vez te conto as manias que ainda surgirão, mas por hoje basta. Não gostaria de influenciá-los com aos primeiros passos do manual de manias que ele está escrevendo neste exato momento

Edinaldo Benicio

31/12/2006.

Quinta-feira, Dezembro 21, 2006

Páscoa

Vai, vai pensando Benicio babaca! Vai pensando que pobre aceita tudo!! Na Páscoa de 2002 ganhei um ovo de chocolate de uma empresa de Inglês na qual eu trabalhava. Fiquei muito contente e decidi pegar um ônibus e levar o ovo para um senhor que pedia esmola na frente do Banco do Brasil da Avenida Engenheiro Roberto Freire. Estava feliz com meu ato de amor ao próximo. Isso é que é! Meu ato de amor ao próximo. Ato que pensando bem, só me satisfazia. Saí do centro da cidade para entregar um ovo de páscoa para a primeira pessoa que passou pela minha cabeça – ele, o homem que pedia esmola, que mal podia andar, e que talvez só Deus soubesse a última vez que pusera um chocolate na boca. Desci do ônibus e encontrei com o sujeito. Já era sete da noite. Olhou-me, levantou a mão e me pediu esmola. Coloquei em sua mão o ovo de Páscoa. O homem ficou surpreso e me perguntou. O que é isso? Ora, é um ovo de Páscoa, rapaz! Falei sorrindo. Não quero, não! O quê? Não quero, não! Mas como? Isso é um ovo de Páscoa e você não vai querer? Fiquei atônito. Ele olhava para o ovo com um olhar de desprezo. Perguntei mais uma vez. Por que mesmo você não quer este ovo? É que dar espinhas comer chocolate e estou fazendo um tratamento. Como é que é? Você não quer um ovo de chocolate porque dar espinhas? Tá bom, falei abestalhado. Parei e fiquei pensando como poderia uma pessoa que pede esmolas todos os dias se dar o luxo de fazer tratamento para espinhas! Peguei o ovo e joguei na lata do lixo antes de subir num ônibus. Também desprezei o ovo e nunca mais dei chocolate de presente. Fiquei com medo de levar outro desprezo prá casa.

Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

Quando realmente descobri que Papai Noel não existia

O natal está chegando e sempre lembro da mesma história. Eu, como quase toda criança, era louco por uma bicicleta e lá em casa havia algum tempo que manifestava esta idéia. Creio que eu tinha uns nove anos. Já havia usado as bicicletas dos meus amigos, caído bastante, rasgado a mão, os joelhos, mas não desistia. Foi então que mamãe me deu uma brilhante idéia. Fazer uma carta para o Papai Noel pedindo uma bicicleta Caloi Cross BMX. Era a moda naquela época e todos os garotos da minha idade sonhavam em ter uma. Se mamãe havia dito para eu fazer uma carta era na certa que ganharia uma bicicleta. Todo ano era a mesma coisa. Parecia que minha mãe conhecia de verdade o Papai Noel. Já bem perto do natal, muito depois de ter feito a minha carta, meu pai me chamou e disse que a gente iria escolher minha bicicleta. Fiquei todo contente, mas um pouco pensativo. Já na loja vi minha futura Caloi Cross BMX . Esta é a que eu quero, papai! Não, você quer essa aqui, disse ele. Mas essa aí? Essa? É! essa mesmo. Mas pai essa é uma Cecizinha!!! É uma bicicleta de menina! Mas olha meu filho, ela é azul, tem um cestinho para você levar seus livros, é linda! Mas pai eu quero uma Caloi Cross. Olha meu filho, o Papai Noel, este ano, só tem dinheiro para comprar essa bicicleta. É que ele está quebrado, o bichinho! Ele me disse para eu comprar essa bicicleta para você que quando for no dia 24 à noite, ela vai deixar do lado da sua cama. Achei aquilo lindo, mesmo que fosse com uma Cecizinha azul e de cestinhas. Os dias se passaram e quando foi do dia 24 pro dia 25 fui dormir depois de ter comido quase todo panetoni da ceia. Lá pelas altas horas da madrugada quando acordei pude ver, por dentro do mosquiteiro da minha cama, que papai Noel havia mesmo me dado uma Cecizinha de presente. Fiquei louco de felicidade. Tinha finalmente ganho a minha primeira bicicleta. Minha irmã também havia ganho uma bicicleta, mas amarela e bem mais masculina que a minha. Acordei meus pais e os dois, posso lembrar como se fosse hoje, ficavam olhando com uma cara de alegre e só dizendo que eu tinha sido um bom menino e que por isso minha Cecizinha havia chegado. Já de manhã quando saí na rua para mostrar o meu presente, todos os meus amigos me chamavam de mulherzinha. Eu que já era faixa amarela de Karate, agora andava com uma bicicleta de menina. Fui para casa e comentei com meus pais. Que besteira Júnior! Eles estão com inveja de você! Não liga não, filho! Nem contei derrota. Tirei a cestinha, o bagageiro, pelei a bicicleta toda. De uma hora para outra, tudo o que eu mais fazia era acabar com meu primeiro meio de transporte. Passei a andar na bicicleta de minha irmã escondido dela, sugeri uma troca, mas nada de negociação. Foi então que descobri que Papai Noel nem sempre atendia todas as crianças como elas desejavam, que embora poderoso, voando com um monte renas pelo mundo a fora, também tinha as mesmas dificuldades econômicas dos pais de todo o Brasil. Que saudade de minha Cecizinha. Aquela miserável!!!!

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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