Manias
Quando a pessoa começa a ficar famosa, chega a mania de falar de si em terceira pessoa. Vamos dar um exemplo da pessoa que vos fala, ou vos escreve. Não importa agora. Seria mais ou menos assim: Rapaz, Benicio só quer falar agora em terceira pessoa. Virou chique. Na verdade virou um besta. Talvez seja mais uma de suas manias. Deixa eu te falar uma coisa. Outro dia peguei Benicio com uma caneta em uma mão e um pedaço de papel na outra. Descobri que era para escrever nossas frases e usar em seu blog. Virou um chato. Toda hora diz: Esta frase daria o começo de um bom texto. Ei, visita meu blog! Você sabia que tenho um blog? Cuidado que ele pode estar furtando as tuas palavras. Mas não pára por aí. A caneta vai com ele para todos os cantos, sempre em alguns dos bolsos da calça jeans. É uma caneta azul marca Uni-ball – eye - micro. E só é azul por não ter encontrado a caneta preta na livraria do Campus. Pois é! Sem esta caneta seria como se estivesse nu. Que louco! Fica passando a mão pelo bolso vazio e resmunga: esqueci minha caneta, que droga! Acho que já faz parte da vestimenta. Se uma mulher que sai sem brincos ou sem batom se sente um pouco nua, sem a caneta é a mesma coisa. E outras manias. Quando está no banheiro nunca abre a torneira sem que não seja com um pedaço de papel. Esqueci de dizer. Só abre a porta do banheiro com os pés para não ter que pegar na maçaneta. Quanto não há papel-toalha, geralmente, levanta a perna e dar um golpe de Karate na torneira para abri-la. A mesma coisa para fechá-la. Contou-me que essa mania começou há muito tempo em uma aula de biologia em que seu professor conversava sobre bactérias, coliformes fecais das cordinhas do banheiro y otras cositas más. E as manias foram aumentando. Contaram-me que ele não encosta os lábios no talher quando está comendo. Sente nojo e arranca a comida com os dentes. Que cheira o livro antes de ler, principalmente, quando é livro novo. E que volta antes de sair, umas três vezes para checar se a porta do seu quarto está fechada. Certo dia sua namorada pediu para que assistisse ao filme “O Aviador”, que fala de um homem que possui as manias mais estranhas do mundo. Mas ele se recusou dizendo que não gostaria de ver coisas exageradas. Como se suas manias não chegassem também a esse ponto! Seu amigo me disse que quando ele era criança costumava estudar com um Kimono de Karate durante horas e a razão era, simplesmente, para não ser perturbado pelas moscas e mosquitos que pudessem pousar em seu braço. Acabou até fazendo um trabalho para a feira de ciências da escola em que estudava a nocividade desse inseto repugnante. Mas quando não havia moscas passava horas estudando nu e andando nu pela casa como se nada estivesse acontecendo. Parece que o rapaz tinha coisas estranhas mesmo, pois, lá pelo segundo grau, quando estava triste, subia até o topo do pé de ciriguela de sua casa para ficar pensando na vida. Não sei se posso ficar contando tantas coisas assim, mas creio que ninguém vai sair por aí dizendo para Benicio as coisas que estou contando, não é verdade? As manias começam e deixam marcas. Às vezes são até benquistas. Mas eu conheço mais sobre esse meu amigo. Quando pega alguma pessoa para conversar, explora tudo e sai sabendo de coisas que até mesmo a pessoa não gostaria de contar. Tem mais, esse sujeito tem uma capacidade enorme de armazenar essas informações e diz que a história da vida privada pode influenciar muito nas decisões. Percebi depois de muitas observações, que quando B., assim que irei chamá-lo a partir de agora, está conversando e não se interessa mais pela conversar, começa a passar a mão na cabeça. Primeiro passa uma, outra, coça, depois coça com a outra e assim vai num ritual que acabou se tornando em mais uma mania inexplicável. O pior mesmo é falar inglês na sua frente. Não que ele seja o máximo nessa língua, mas que adquiriu a mania de ficar no pensamento corrigindo as pessoas. Lógico que as pessoas não sabem, mas cada erro, acerto, pronúncia errada, sotaque puxado é corrigido mentalmente por nosso amigo. Em restaurantes, a coisa ser torna mais dolorosa, neste caso para mim, que não tenho essas frescuras. Mas é chato almoçar com uma pessoa que olha se o garçom coloca o polegar dentro do prato, se toca com os dedos nas bordas do copo deixando as digitais. Parece até que ele não sabe que é necessário ao corpo ter contato com bactérias, sujeiras, para adquirir imunidades. E que não precisa ficar limpando os pratos com quardanapos quando o garçom desaparece por algum instante. É até mal-educado, eu disse. Mal-educado é garçom sujo, me respondeu. Talvez ele esteja certo, errado, mas sei que tenho que parar agora para não criar a mania de falar das manias de Benicio e nem vocês ficarem com a mania de lerem este texto sobre as manias de meu amigo. Quem sabe em alguma outra vez te conto as manias que ainda surgirão, mas por hoje basta. Não gostaria de influenciá-los com aos primeiros passos do manual de manias que ele está escrevendo neste exato momento
Edinaldo Benicio
31/12/2006.


