Sexta-feira, Novembro 17, 2006

Um dia desses

Em 2002, andando por Ponta Negra. Tive a oportunidade de observar como a praia estava suja. Latas, papel, palito de churrasquinho, plástico, camisinha, de tudo mesmo. Foi então que escolhi um catador de lixo que limpava a praia para ser o meu alvo de perguntas, pois quem me conhece já sabe que na conversa estou quase igual minha mãe, tia Ângela e minha prima Kris, juntas. E aí camarada, tudo massa? Tudo. Muito quente este sol, não é verdade? É. Rapaz que praia suja! Nunca vi coisa igual! Que pessoas mal-educadas. O catador de lixo da prefeitura só olhava e dizia “é”. Aí tive uma idéia maravilhosa e falei: Seria ótimo que a gente fizesse uma campanha para que as pessoas não sujassem mais. A prefeitura teria que colocar cestos de lixo em todos os cantos da praia, tudo limpo e lindo. Então o catador, olhou para mim e disse: Deus me livre! Tem que ficar sujo mesmo. Quanto mais sujo melhor. Ainda bem que tá cheio pessoas mal-educadas nessa cidade. Mas por que, rapaz? Perguntei abismado. Meu senhor! Não, senhor não. Tenho somente 25 anos. Riu. Se as pessoas não sujarem eu perco o emprego e tenho família para criar. Foi difícil conseguir isso aqui. Fiquei parado abestalhando. É verdade! Você tem razão. Joguei o côco que estava tomando no chão e fui para casa pensando na importância do lixo.

Nunca mais parei de sujar Ponta Negra. Como é triste a realidade desse país.

Edinaldo Benicio Terra do Sol, 13/11/2006.

3 comentários:

gaby disse...

Rapaz, agora fiquei pensando na importância da sujeira para a realidade trabalhista brasileira. É uma pena termos que sujar e poluir pra não desempregar.

É isso mesmo! Poluição sim, desemprego não! Essa é a realidade de um país chamado Brasil.

Fábio Rebouças.

Benicio disse...

e aí, júnior! tudo em paz? li o texto. gostei.vc tem espírito de busca nas palavras.isso é bom. continue externando sua sensibilidade. go ahead! Milton Pinto.

milton]
miltonpintto@yahoo.com.br www.miltonpinto.com

hanedlat disse...

Duelo...consciência...consumismo....gastar sem ter culpa depois de comprar, contudo o possuir sem ter como pagar é como ficar pendurado numa corda sem fios, puxar os cabelos metaforicamente e deitar a cabeça num travesseiro com sensação de estar denpendurado de cabeça para baixo. Tudo gira em torno da divída, aquela necessidade imediata de comprar tem mutação de capeta. E martelando na cabeça do bom pagador, minha dívida, minha culpa, mea máxima culpa. Ah! que dor! Que angústia! como vou pagar pelos meus descontroles? Já sei.Vou tirar um empréstimo, usar o CDC para pagar minhas dívidas.Bendito CDC, meu crédito orai por mim,neste vale de dívidas! Pronto, deu certo! Agora tenho mais dívidas.E aquele gostinho de prazer de consumir junto a amada, os momentos de ternura...vão escorrendo entre meus bolsos vazios, e me dou conta de que não tenho mais crédito, miro desolada o retângulo metálico. E vejo quem tem poder de consumo são os deputados e senadores que podem dobrar seus salários.

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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