Natal acordou assutada
Às oito horas da manhã desse sábado, um grupo de mais ou menos trezentas pessoas fez um paredão humano em frente ao Praia Shopping, interditando todos os dois lados da Avenida Engenheiro Roberto Freire. Tudo parou e a polícia foi imediatamente solicitada para dar solução ao problema. Mas não era um grupo de políticos articulados que se encontravam fazendo a barricada humana na frente de uns dos mais famosos shoppings da Cidade do Sol, nem mesmo membros da Ongs que defendem a praia de Ponta Negra, mas trezentas pessoas formadas nada menos que por todos os flanelinhas, todas as profissionais do sexo que trabalhavam naquela região. Disseram que tinham uma reinvidicação justa. Os flanelinhas levantavam seus rodos e gritavam por melhoria de vida. Não agüentavam mais a maquiagem que era feita nas ruas e nos canteiros daquele bairro. Diziam serem discriminados e queriam cobrar pedágio dos carros que parassem nos semáforas da cidade. Já estavam cansados das promessas dos políticos e por isso iriam tomar esta medida. As profissionais do sexo pediam em seus cartazes que Natal criasse uma rua específica para a prostituição, aos moldes de Amesterdã. Já que a cidade do Natal gostava tanto dos gringos, que dava tanta liberdade para que fizessem de tudo, estaria na hora de acatar essa idéia maravilhosa. Falou uma delas, Edilene Erivalda, 29 (nome fictício), que esta iniciativa deveria ser feita de imediato, por elas, natalenses, pois poderia ser que um gringo, provavelmente um italiano, conseguisse a autorização da prefeitura para levar esta idéia a diante. Os natalenses deveriam parar de ficar vendendo ginga com tapioca na praia, enquanto, gringos e pessoas de outros estados do Brasil vinham fazer as mesmas coisas, mas cobrando um preço absurdo. Também pediam por um posto de saúde que distribuísse camisinhas vinte e quatro horas nas redondezas. A manifestação havia adquirido volume. Agora os gringos que não entendiam de nada, paravam suas caminhadas no calçadão de Ponta Negra, tiravam fotos, ficavam olhando, e perguntavam se já era o início do Carnatal. Um flanelinha chegou a dizer que queria oportunidade para abrir uma empresa de lava-carros ali por perto e que já tinha todas as pessoas que iriam trabalhar para ele. Disse categoricamente que gostaria de uma oportunidade para viver melhor, pois tinha uma família com cinco crianças para alimentar. Um travesti afirmou que a articulação estava formada e que se a prefeitura e o governo do Estado não atendessem as condições reinvidicadas, morreriam de fome, mas fariam greve de sexo e, consequentemente, a Cidade do Sol não receberia mais enorme levas de estrangeiros amantes do turismo sexual. Todos perderiam. Hotéis, restaurantes, taxistas, artesanato. Um desfalque para a economia local. Às onze horas a manifestação acabou. Estava lançada a proposta de ter uma cidade em que todos deveriam ser vistos como partes integrantes de um sistema, de um sistema que torna os mais necessitados invisíveis perante uma sociedade dominante, hipócrita que só pensa em carnaval fora de época, praia, mar e, sobretudo, sombra e água fresca.
Edinaldo Benicio,
Terra do Sol, 12/11/2006.

4 comentários:
Foi assim mesmo, eu vi tudo, estava do lado de um turista argentino, que olhava admirado, me perguntando: "Es carnabal?".
GUSTAVO REBOLÇAS
DOUTORANDO EM FÍSICA - UFRN.
Benicio, essa manifestação foi real ou ficticia? Caso tenha sido real, me impressiona pela mobilização, in tesis, "nao-politiqueira". Se tiver sido uma invenção, pode ser um mote pra que o Brasil, a começar por Natal, se pareça mais com Amsterdã. Não pelo "red light district", mas pelo respeito às liberdades individuais. Abraço.
Os maiores culpados disso tdo?! A própria sociedade q se esconde por trás dos "famoso" carnaval, das belas paisagens paradisíacas, da hipocrisia, da ambiação exarcebada. O que vale é o Ego inflamado, enquanto nós aguentamos piadinhas de gringo! Bjs..
Amigo, qto tempo mesmo ein... mas vejo que vc continua inspirado em suas ideias, hehe, abraço!!
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