Sexta-feira, Novembro 17, 2006

Lá no Brejo

Reunidos no interior do sertão paraibano, na casa de minha avó, pela primeira vez tive o prazer de ver os parentes que meu pai tanto falava. Tia Valentina querendo ler nossas mãos, uma irmã de minha avó que eu nunca tinha visto antes. Pudera! Eu também não andava pelas bandas de Brejo dos Santos como deveria. Uma outra irmã, um irmão de vovô, um primo - segundo, uma prima casada com outro primo de meu pai, uma salada de família com todos os graus possíveis. Tio Valdir passou horas cheirando limão. Acho que assim ele parava as lágrimas e estancava um pouco o seu soluço. Papai, não disse uma palavra se quer e não lembro de ter visto uma gota cair de seus olhos. Minhas irmãs choravam com outras primas e, de vez em quando, retocavam a maquiagem num dos quartos da casa. Foi um dia triste. Era mais quem chegava perguntando pela finada. Um bêbado que quis participar acabou sendo aquietado pela parentada. Ela tinha o rosto pálido e os lábios bem finos. Houve horas que o silêncio imperou naquela casa de canto onde por tantos anos Rita aparecia para receber os amigos. Vovô, que sem dúvidas vou ficar parecido com ele quando envelhecer é consequentemente, meu pai trinta anos mais velho. As horas que passei observando, me levaram a crer que aquele seu movimento de barata tonta era a forma mais rápida de ver o tempo passar. Às 16hs ela foi levada pelos homens da casa. Lá no Brejo o cemitério fica bem em frente as serras e, uma paz podia ser sentida mesmo em um momento de ansiedade como aquele. Abre-se o caixão. Vovô chora. Todos choram. O coveiro diz que ainda pode passar um bom tempo esperando. – Agora é a sua vez de colocar terra no caixão de sua avó, disse um de meus primos-segundos. Sinistro! Hora de ir embora, visitar outros parentes que ali também tinham sido sepultados e perceber que eu tinha passado muito tempo longe da velha Rita. Natal – RN, 25/01/2006.

3 comentários:

Benicio disse...

Sinto dó quando não podemos conviver profundamente as relações familiares por vários motivos:distância, talvez destino, carma, todavia o amor que sentimos por nossos parentescos sangüíneos ou espirituais é presente de Deus. A viagem de sua vó, apesar de não conhecê-la mexeu com meus sentimentos, afinal você sofria, sabia eu que você derramava cristais líquidos, saudosos pela ida de sua vó. Mas do que seria nós se não houvesse a literatura para catarse. Você tem mais uma vó aqui no plano terreno para curtí-la.Um beijo de sua Tia e Professora Graças Marinho

maria das graças marinho de oliveira gmarinho2@yahoo.com.br

Benicio disse...

Esse seu comentário me lembrou uma entrevista que assiti ontem, 02/11: Um expert em etiqueta disse que até em velório a pessoa deve ter uma postura... Mas pra mim,velório não tem que ser tudo igual. E seu post vai me fazer observar mais como se choram os mortos. Histórias interessantes podem ser contadas... Beijo meu lindo!! Parabéns pelo blog.

Léo - www.96fm.com.br/blog

Benicio disse...

sempre que lemos algo nos lembramos de alguma coisa acho... alguem ai se lembrou de uma entrevista. eu lembro mesmo dos enterros de minha família, no interior... em tudo parecidos com o que você descreve mas... as vezes eles parecem uma festa, o que os tornam realmente estranhos... o único instante de reencontro familiar, quando os vizinhos abrem as portas de suas casas, para que nós e todo o resto da família nos hospedemos (adoro esse clima de hospitalidade), quando eu passo a madrugada quase toda na verdade bem longe do caixão, fico na rua, em frente a casa de meu tio, conversando com meu irmão e meus primos... falando da faculdade, das brincadeiras de infância... um tom de nostalgia... saudades de tudo! nunca de quem já foi, mas do que já foi!!! de manha se faz uma verdadeira prossissão. e dos caminhos da casa, à igreja, ao cemitério... se percorre toda uma cidade, como se se sentisse o tempo... não sei!

DÁRIA
daria_bdc@hotmail.com

Sobre o escritor

Benicio de Sá
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Mestrando em Direito pela UFRN na área de biocombustíveis.
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