Desumbigada
Logo que se descobriu que a primeira mulher a ficar sem umbigo, uma australiana de 26 anos que estava sendo entrevistada na televisão, os executivos das fábricas de champagne e vinhos franceses foras os primeiros a ficarem atordoados. Se a moda pegasse, logo, logo as mulheres do mundo inteiro imitariam esta desumbigada e as fábricas perderiam parte de um mercado promissor das vendas de champagne e vinho. Para alguns a lógica não veio de imediato. Organizou-se uma reunião com as cooperativas dos vinhos e champagnes da França para solucionarem o problema. – Bem, senhores. Falou o presidente da cooperativa para um grupo de 15 homens das mais importantes vinícolas. – Estamos reunidos aqui para discutirmos um tema de extrema relevância para nossas empresas. Como todos já sabem, uma mulher que agora a intitulamos de, desumbigada, apareceu nos canais de televisão apresentando esta mais nova invenção da estética humana. Esta insana resolveu fechar seu umbigo com alguma outra parte de seu corpo e se diz estar extremamente feliz. Disse a todos que teve esta idéia há algum tempo quando descobriu um affair de seu marido com uma de suas amigas. Não sabemos bem os detalhes, mas os boatos contam que a desumbigada, permitam-me chamá-la deste modo, pois, não vejo nenhuma outra titulação mais adequada para esta criatura. Como eu estava dizendo, esta “coisa” encontrou uma carta da amante de seu esposo em que esta descrevia todas as fantasias sexuais que sonhava ter com o umbigo. A carta relatava os chantilis, cerejas, cervejas, línguas e, principalmente, nossos vinhos usados na orgia dos amantes. - Desculpem-me, não quero especular o que se poderia fazer com uma garrafa de vinho e, principalmente, com um umbigo em um ventre em perfeitas condições de apreciação. Todos riam naquele instante. Pareciam ser experientes no assunto. Contudo, estou aqui para dizer que se a moda pegar perderemos 30 por cento de nossas vendas no mundo. Com as pesquisas que fizemos contatou-se que exatamente 30 por cento dos champagnes e vinhos comprados no mundo são exatamente para serem usados durante as imaginativas noites de amor. Os dados estatísticos mostram também que a maioria dos compradores é formada por homens que usam os vinhos e champagnes para seduzir suas mulheres e, logicamente, para fazer o que sempre fazemos com os umbigos de nossas esposas e amantes. Mais uma vez todos riram. Se esta parte erótica do corpo humano desaparecer, poderemos até mesmo falir devido à concorrência com as vinícolas do mundo. Se os homens não puderem mais usar o umbigo de suas mulheres como cálice para nossos vinhos, significa que, mais cedo ou mais tarde, estaremos perdendo um mercado cada vez mais promissor de uma parcela de iniciantes nos prazeres sexuais. Todos pararam por um instante e só então entenderam a gravidade do problema. Um outro executivo que estava ao lado do gerente da cooperativa também acrescentou que as empresas de lingerie estavam profundamente atordoadas com as notícias da desumbigada, pois, se uma parte tão erótica desaparecesse de vez, o caos econômico poderia ocorrer em suas empresas. Os mais pessimistas sugeriram a redução do número de funcionários caso ficasse comum perder o umbigo. De imediato tiveram o conhecimento que todos os sexshops estavam se organizando para contestar tal absurdo, por meio de abaixo-assinado lançado na internet. Os estilistas italianos prepararam um desfile em que todas as modelos apareciam com seus umbigos de fora para mostrarem a importância dessa parte do corpo no mundo fashion. Não adiantou. Mais outra mulher, agora no norte da Itália anunciava que estava retirando seu umbigo por achar que somente assim poderia mostrar sua independência sexual. Inúmeros foram os casos que apareceram durante os dois primeiros meses desde o primeiro umbigo feminino ter sido escondido pelas mãos dos cirurgiões plásticos. A Santa Sé se posicionou explicando aos fiéis que a retirado deste orifício era o mesmo que desconectar-se de Deus.
Contudo, as desumbigadas receberam apoio político dos partidos de esquerda em que as intitularam de: “desumbigadas, mas independentes da mídia consumidora de corpos perfeitos, fruto da ilusão provocada pelo Photoshop”. Não teve outra. A moda pegou e exatamente 20 por cento dos agricultores franceses perderam seus empregos. Os lingeries perderam mercado e mais de 70 mil pessoas ficaram desempregas nos quatro cantos do mundo. Vários motéis lançaram propaganda nos outdoors explicando a importância da mulher “umbigada” perante a sociedade. No entanto, uma candidata à deputado pelo PSOL - um partido de esquerda brasileiro - conseguiu se eleger por ter se submetido a uma OPERAÇÃO DE PREENCHIMENTO DO UMBIGO. Era assim que se chamava este procedimento. A maioria dos eleitores da deputada alegou que uma mulher sem umbigo no parlamento era a prova de aceitação das diferenças pelo congresso nacional. Os filósofos clínicos também se posicionaram a favor da retirada do umbigo, pois a busca da felicidade poderia estar em fazer o que bem quisesse com o corpo. O presidente do Brasil tentou editar uma medida provisória proibindo esta prática dentro do país, mas acabou sendo desaconselhado por seus assessores que preferiram a não intervenção do executivo em temas desta natureza, justamente em época de campanha eleitoral. Seria desvirtuar demais as propostas políticas do governo. As bolsas de valores do mundo despencaram, mas em pouco tempo os acontecimentos foram se normalizando. Uma escola de samba do carnaval carioca de 2007 até homenageou as desumbigadas mostrando a emancipação da mulher do século 21 e que mesmo sem umbigo, continuava sendo mulher e, não perdia esta característica essenciail. A igreja católica acabou se pronunciando a favor, pois percebeu que os evangélicos estavam abrindo as portas para as mulheres sem umbigo. Perder parcela considerável de fiéis era inconcebível em um século onde a disputa por pagadores de dízimo se encontrava cada vez mais acirrada. As empresas de lingerie iam recuperando seus mercados, enquanto os sexshops, as fábricas de vinhos e champanhes bombardeavam canais de televisão com propagandas que incentivavam a procura de outros orifícios que pudessem ser usados como cálices nas horas dos prazeres libidinosos, pois, se o umbigo existia ou não, isso não era problema. A solução era encontrar um lugar onde o vinho pudesse ser degustado.
Natal-RN, 03/03/2006.
5 comentários:
O cálice é uma das partes da flor...
Wagner Artur artur@digizap.com.br] [http://malditaspersianas.blogspot.com]
Benicio, é impressão minha ou voce anda revoltado com o "neo-ultra-capitalismo" e a "ideologia da massificação"?? hehehe
Na verdade, acho que sua rixa é algo pessoal com a galera do Photoshop!!! hehehe
Leia "Escute Zé Ninguém", do Wilhelm Reich, voce vai curtir. Abraço!
Muito legal!!! Como seria o mundo sem umbigo? hahaha! Gostei bastante. Vou fuçar mais pelo blog pra conhecer a mente de Ben! Acho que vou gostar disso.
E eu postei errado... Tem essa mesma mensagem no post anterior... Sacumé, né? Principiante nos blogs é osso! kkkkkkkkkk
Gostei, o texto é muito legal. Ia ficar esquisito uma barriga sem umbigo, mas acho que ele não faria tanta falta assim. Não seria dificil encontra outro lugar pra degustar vinho.
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